Métodos contracetivos

Métodos contracetivos

O que são métodos contracetivos?

A contraceção consiste no controlo da conceção, ou seja, evitar que ocorra a gravidez. Para isso, são utilizados vários métodos que permitem atingir este objetivo, os métodos contracetivos.

A grande variedade de métodos contracetivos existente permite que seja feita uma escolha individualizada por parte da mulher, de acordo com o seu perfil psicológico e físico, após o conhecimento de todos os métodos alternativos. Apesar da escolha do método contracetivo ser da responsabilidade da mulher, cabe ao médico informar sobre a sua classificação, as vantagens e desvantagens, riscos e benefícios e as contra-indicações de cada método, conforme discutiremos ao longo deste artigo. Esta coordenação é essencial para a boa adesão e consequente eficácia contracetiva.

A adoção de estratégias eficazes no planeamento familiar é essencial para ajustar o comportamento sexual, diminuir o risco de gravidezes não desejadas e o risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis (DST), permitindo melhorar o bem-estar e a saúde da mulher. Em qualquer fase da vida da mulher estes princípios devem ser aplicados, tendo particular importância em fases precoces como a adolescência, período em que as medidas preventivas têm particular importância.

Tipos de métodos contracetivos

Os métodos contracetivos femininos que podem ser utilizados são os seguintes:

  1. Contraceção hormonal combinada (conhecida como “pílula” na sua forma oral);
  2. Contraceção progestativa;
  3. Dispositivo intra-uterino (DIU);
  4. Método de barreira;
  5. Métodos naturais;
  6. Esterilização.

Em Portugal, uma larga maioria das mulheres em idade fértil utiliza um método contracetivo. Os métodos mais frequentes são a contraceção hormonal combinada oral, o preservativo e o dispositivo intra-uterino (DIU).

1. Contraceção hormonal combinada

A contraceção hormonal combinada (CHC) contém dois tipos de hormonas na sua constituição, o estrogénio e o progestativo. Na sua forma oral a CHC é conhecida como “pílula”, consistindo na toma diária de um comprimido, durante 3 semanas, seguida de pausa de 1 semana. Contudo, existem outras formas de administração, conforme abordaremos adiante.

O estrogénio mais frequentemente utilizado é o etinilestradiol, um estrogénio sintético. Pode ainda ser utilizado um dos seus derivados como o valerato de estradiol ou o 17b-estradiol. A dose de estrogénio utilizada é um dos fatores de grande importância, uma vez que pode estar associada a riscos e efeitos secundários. Ao longo dos anos tem havido uma diminuição desta dose, sendo que atualmente todos os contracetivos utilizados são de baixa dose (15, 20, 30 ou 35 micro g).

O progestativo é a hormona que inibe a ovulação e que impede a gravidez. Os progestativos que podem ser utilizados são vários, cada um com características e efeitos diferentes. Estão disponíveis os derivados da 19-nortestosterona, os derivados da 17-OH-progesterona e os novos progestativos.

A dose de cada hormona utilizada pode ser a mesma ao longo de todo o mês, sendo considerada contraceção monofásica, ou pode variar ao longo do mês, chamada de contraceção multifásica.

Atualmente, existe uma grande variedade de CHC que diferem entre si nos efeitos, nas dosagens, na via de administração e na duração. Nenhum tipo de CHC tem eficácia superior a outro, se tomados de forma correta. No entanto, dependendo das características de cada mulher, pode estar indicado um determinado tipo de CHC.

Este método pode ser utilizado desde a menarca (aparecimento da primeira menstruação) até à menopausa, sempre que respeitadas as exigências respeitantes à CHC.

1.1 Vantagens

Este tipo de método está indicado nas mulheres que pretendem uma contraceção reversível, segura e independente no coito. Pode ainda ter como vantagem alguns efeitos não contracetivos.

Este método tem como vantagem ser eficaz se tomado corretamente. Para além disso, tem como benefícios não contracetivos a regularização dos ciclos menstruais (menstruações regulares e previsíveis), a melhoria da dismenorreia (dor na menstruação), a diminuição do fluxo menstrual, a melhoria dos sintomas pré-menstruais e a melhoria da acne e do hirsutismo. Permite ainda o controlo do aparecimento de quistos do ovário funcionais, diminui o risco de incidência e gravidade dos sintomas associados aos miomas uterinos, diminui o risco de cancro do ovário e de cancro do endométrio. Algumas doenças que são agravadas pela menstruação, como a endometriose, permite o controle e melhoria dos sintomas.

1.2 Desvantagens

Tem como desvantagem alguns efeitos indesejados que podem ocorrer com a sua utilização. Pode haver hemorragias entre as menstruações (“spotting”), que são habitualmente de sangue escuro e de pequena quantidade ou pode não haver menstruação (hemorragia de privação) na pausa da toma. Associado à utilização destes métodos pode também haver sintomas de náuseas e vómitos, mastodinia (dor mamária), cefaleias (dor de cabeça), aumento de peso (1 a 2 Kg) e alteração do humor (depressão). Todos estes efeitos devem ser esclarecidos com o médico, de forma a confirmar a correta utilização do método, a excluir outras patologias subjacentes e a ajustar a hormona, a dose e a via de administração sempre que indicado.

1.3 Riscos

Antes do início da utilização do método contracetivo deve ser feita uma avaliação clínica pelo médico de forma a identificar situações que a contra-indiquem. Deve ser feita uma reavaliação com o decorrer do uso para avaliar os efeitos indesejáveis ou o aparecimento de novas situações que possam indicar a interrupção do método. Isto deve-se ao fato de as hormonas utilizadas nesta contraceção estarem associadas a alguns riscos. O tromboembolismo venoso é raro e está associado ao componente estrogénico, podendo alguns progestativos aumentar o seu efeito. O risco de enfarte agudo do miocárdio pode estar aumentado nas mulheres com mais de 35 anos e fumadoras. O risco de cancro da mama é controverso, no entanto, a contraceção combinada parece ser um co-fator para o desenvolvimento de cancro da mama.

A utilização de alguns fármacos (medicamentos) pode interferir na absorção e metabolização da CHC e diminuir a sua eficácia, como alguns antiepiléticos e antivirais. O oposto pode igualmente ocorrer, ou seja, a CHC pode interferir na eficácia de outros medicamentos, como alguns antiepiléticos, antidepressivos e imunossupressores.

1.4 Contra-indicações

São contra-indicações absolutas para a contraceção hormonal combinada: presença de vários fatores de risco para doença cardiovascular (tabagismo, obesidade); hipertensão arterial não controlada; antecedentes de enfarte agudo miocárdio ou doença coronária; antecedentes de acidente vascular cerebral (AVC); diabetes associada a doença vascular; enxaqueca com aura, em qualquer idade; antecedentes ou fase aguda de tromboembolismo venoso; cirrose hepática (fígado), hepatite vírica aguda, adenoma hepático e cancro do fígado; Lúpus eritematoso sistémico com anticorpo fosfolipídico positivo; alterações genéticas trombogénicas (trombofilias). Existem outras doenças em que o tipo e o grau da gravidade da doença deve ser avaliado de forma cuidada de forma avaliar e ponderar a utilização do método sempre que os benefícios associados à utilização do método são superiores aos riscos.

1.5 Mitos

Existem algumas afirmações que se foram mantendo ao longo do tempo e que, com a evolução da ciência, com o tipo de fármacos e as doses utilizadas nos dias de hoje, permitem contrariar esse tipo de conceitos.

Não existe indicação ou qualquer tipo de vantagem na interrupção da CHC. Assim, a pausa ocasiona na toma da CHC não está indicada, podendo aumentar o risco de uma gravidez não planeada.

A CHC não diminui a fertilidade futura da mulher. A capacidade de engravidar no futuro não é alterada pela CHC e, assim que suspensa é retomada de forma imediata.

A CHC administrada de forma contínua, sem pausa, não é contra-indicada. Existem mesmo situações clínicas em que este tipo de esquema está indicado para o controlo de sintomas ou agravamento da doença. No entanto, a toma contínua da CHC pode estar associada a algumas desvantagens, como o “spotting” (perda de sangue).

1.6 Vias de administração

A CHC pode ser oral, (comprimidos), transdérmica (selos) e vaginal (anel vaginal).

A CHC oral (pílula) consiste na toma diária de um comprimido, durante 3 semanas, seguida de pausa de 1 semana. Durante a semana de pausa ocorre a hemorragia de privação (menstruação). Existem formulações contínuas, constituídas por um comprimido por dia durante 28 dias. Neste tipo de esquema, se não houver nenhum comprimido placebo (sem medicamento), pode não haver hemorragia de privação (menstruação). A CHC contínua aumenta o ciclo, permitindo o controlo de algumas situações clínicas, e diminuiu a probabilidade de esquecimento. O esquecimento da toma de comprimidos é um dos principais fatores que contribuem para a falha do método, sendo esta a sua principal desvantagem.

A CHC transdérmica consiste na colocação de um selo semanalmente, durante 3 semanas, seguida de 1 semana sem aplicação, na qual ocorre a hemorragia de privação. Os sintomas de mastodinia (dor mamária) e cefaleias podem ser mais frequentes nesta via de administração, podendo ser uma desvantagem.

A CHC vaginal (anel vaginal) consiste na introdução de um anel maleável na vagina a cada 3 semanas, seguida de uma semana de intervalo (altura em que ocorre a hemorragia de privação). O anel é flexível e é colocado pela própria mulher, sendo considerado pela maioria das mulheres de fácil colocação e remoção. Sintomas de corrimento vaginal podem ser mais frequentes, constituindo uma das suas desvantagens. Outra das desvantagens é a necessidade de manipulação genital e o receio de desconforto.

A utilização do selo e o anel vaginal não estão associados à necessidade de cumprir uma toma diária pelo que diminui a probabilidade de esquecimento. Estes métodos têm como vantagem o menor risco de falha, pois estão menos dependentes da utilização da mulher. Estes métodos estão indicados nos casos de mulheres que não cumprem a toma diária da pílula, com dificuldade na deglutição (engolir), com antecedentes de cirurgia bariátrica, com doença inflamatória intestinal, com diarreias crónica e nas mulheres polimedicadas (que tomam vários medicamentos).

2. Contraceção progestativa

A contraceção progestativa consiste na administração de um progestativo de forma contínua.
Com o aparecimento de novos progestativos, com novas vias de administração, este tipo de contraceção tem-se tornado numa opção eficaz e segura.

O progestativo utilizado permite inibir a ovulação e alterar as características do muco cervical (colo do útero) e do endométrio (interior do útero) e, assim, evitar a gravidez.

O progestativo pode ser administrado por via oral, parentérica (injetável), subcutânea ou intra-uterina (SIU).

2.1 Vantagens

A contraceção progestativa é segura (se tomada ou administrada corretamente), reversível e independente da atividade sexual.

Este tipo de contraceção tem como grande vantagem evitar alguns dos riscos associados aos estrogénios, podendo ter particular indicação nas mulheres que têm intolerância (sintomas como náuseas, vómitos ou cefaleias) ou contra-indicação para a sua utilização, sendo uma alternativa à pílula. Assim, este tipo de contraceção tem indicação nos casos de antecedentes de tromboembolismo venoso; fumadoras, em qualquer idade; hipertensão arterial controlada; síndrome pré-menstrual e cefaleias (dores de cabeça) na menstruação.
Para além disso, é também o método contracetivo de eleição na amamentação.

2.2 Desvantagens

A contraceção progestativa tem como principal desvantagem o padrão de hemorragias imprevisível, podendo a mulher ficar em amenorreia (sem menstruações) ou ter perdas de sangue de forma irregular. As hemorragias (perdas de sangue) irregulares são mais frequentes nos primeiros meses tendo tendência a diminuir com a continuação da utilização do método. Pode também estar associado a mastodinia (dor mamária) e tensão mamária, a acne, a um aumento de peso e a alterações do humor (depressão).

2.3 Contra-indicações

A contraceção com progestativo está contra-indicada nos casos de trombose venosa ou embolia pulmonar ativa (fase aguda), de tumores hepáticos (fígado) benignos ou malignos, de cirrose hepática descompensada, de lupus eritematoso sistémico com anticorpo antifosfolipídico positivo e de cancros hormonodependentes (como alguns cancros da mama e o meningioma). Nos casos em que surge uma doença isquémica cardíaca (enfarte), um acidente vascular cerebral (AVC), cefaleias (dores de cabeça), com aura ou intensas e persistentes, durante a toma do progestativo, este deve ser suspenso e deve optar-se por outro método contracetivo.

2.4 Vias de administração

A contraceção oral com progestativo consiste na toma diária de 1 comprimido de desogestrel, de forma contínua. Este método pode ter particular interesse em algumas situações clínicas como no controlo de menorragias (hemorragias uterinas abundantes), anemia e endometriose. Tal como se verifica na pílula com CHC, também neste tipo de pílula tem interferência com alguns fármacos (anti-virais, anti-epiléticos e antibióticos).

A contraceção progestativa injetável consiste na administração intramuscular de acetato de medroxiprogesterona (150 mg) de 12 em 12 semanas. O progestativo injetável tem como vantagens não ser um tipo de contraceção dependente da correta utilização da mulher, ser de longa duração e não ter interação com outros medicamentos. Está indicada a sua utilização nas mulheres que têm epilepsia (pois este tipo de progestativo não tem interferência com outros fármacos) ou uma doença hemolítica. Tem como desvantagens: a diminuição da massa óssea (geralmente reversível); o atraso na retoma da fertilidade; a necessidade de recorrer a Instituição de Saúde para administração da medicação a cada 12 meses.

O progestativo subcutâneo consiste na colocação de um implante subcutâneo (por baixo da pele) com etonogestrel. Este implante tem efeito contracetivo durante 3 anos. O implante é colocado e retirado sem ser necessária uma cirurgia. A colocação é feita através do próprio sistema do dispositivo, podendo ser utilizada anestesia local, e a remoção através de uma pequena incisão na pele, com anestesia local. Este método tem como vantagens ser de longa duração e não ser dependente da correta utilização da mulher. Está indicado nas mulheres que têm dificuldade em cumprir outro tipo de método. Nas mulheres obesas (IMC > 30) o efeito contracetivo pode estar diminuído ao longo do tempo, especialmente no terceiro ano de utilização, podendo ter indicação para antecipar a sua substituição. Para além disso tem interação com alguns medicamentos, podendo a sua eficácia ficar diminuída. Deve ser atribuída particular atenção em mulheres com alguns tipos de problemas, designadamente, aparecimento de hipertensão arterial ou dificuldade no seu controlo e diabetes mellitus

O progestativo intra-uterino (SIU) é colocado um dispositivo na cavidade uterina (interior do útero) que tem na sua constituição o progestativo (levonorgestrel). A libertação da hormona é local, tendo uma absorção sistémica (por todo o corpo) mínima. Existem dois tipos de SIU: SIU de menor dose (13,5 mg) e de menor tamanho, recomendado para mulheres sem gravidezes anteriores, tem duração de 3 anos; SIU de maior dose (52 mg) e de maiores dimensões, tem duração de 5 anos. A colocação do dispositivo é realizada através de uma abordagem ginecológica (posição ginecológica e colocação de espéculo).

Previamente à colocação do dispositivo deve ser feita uma observação ginecológica cuidada, de forma a diminuir os riscos de perfuração uterina durante a sua colocação e de infeção. Tem como vantagens ser de longa duração e não estar dependente da correta utilização pela mulher. Com este método é possível diminuir o fluxo menstrual e controlar as hemorragias uterinas anormais, as dismenorreias (dores menstruais), a endometriose e a adenomiose. O SIU está associado ao risco de expulsão, mais frequente no primeiro ano e nas mulheres nulíparas (sem gravidezes anteriores). A sua introdução está contra-indicada nos casos de malformações uterinas, de doença inflamatória pélvica ativa (ou até há 3 meses) ou recorrente, doença maligna do trofoblasto, cancro do endométrio e cancro da mama com recetores hormonais positivos. Deve ser considerado outro método contracetivo nos casos de doentes imunodeprimidos, de tumor ou doença hepática (fígado) ativa, de enxaqueca, hipertensão descompensada, diabetes descompensada e doença cardiovascular.

3. Dispositivo intra-uterino

O dispositivo intra-uterino (DIU) não hormonal é constituído por cobre. Este tipo de dispositivo é introduzido na cavidade uterina (interior do útero), através de uma observação ginecológica.

O mecanismo de ação do DIU de cobre consiste na criação de uma reação de toxicidade para o esperma (dificultando a gravidez) e para o óvulo (dificultando a fecundação), e uma reação no endométrio (dificultando a implantação do óvulo). Portanto, existe uma reação de corpo estranho no útero ao DIU que impede a gravidez.

O DIU de cobre é eficaz durante 10 anos.

3.1 Vantagens

Tem como vantagens ser um método eficaz, seguro, de longa duração, reversível e independente da correta utilização da mulher.

Tem particular indicação nas mulheres que pretendem ou têm indicação para uma contraceção não hormonal.

Este tipo de método pode ser utilizado como contraceção de emergência.

3.2 Desvantagens

O DIU de cobre tem como principal desvantagem estar associado a um aumento do fluxo menstrual e a dismenorreia (dor na menstruação), devido à reação inflamatória que ocorre no útero.

3.3 Contra-indicações

Este método contracetivo está contra-indicado nos casos de malformações uterinas que deformem a cavidade (interior do útero), de doença inflamatória pélvica ativa (ou até há 3 meses), de doença maligna do trofoblasto, de hemorragias uterinas de causa não esclarecida, de doença de Wilson ou de alergia ao cobre.

Nas doentes medicadas com fármacos (medicamentos) ou com patologia que provoque imunossupressão, o risco deve ser ponderado em relação ao benefício que este tipo de contraceção possa trazer.

3.4 Riscos

Associado à colocação do próprio dispositivo, na sua introdução na cavidade uterina (interior do útero), existe o risco de perfuração do útero. Nos casos de uma infeção ginecológica prévia, pode ocorre uma disseminação da infeção, sendo essencial o exame ginecológico prévio à colocação do DIU. O DIU de cobre pode ser expulso após a sua colocação, sendo mais frequente no primeiro ano e nas mulheres nulíparas (sem partos anteriores) com menos de 25 anos de idade. Se o DIU não ficar ou não permanecer corretamente colocado, existe o risco de falha do método, podendo ocorrer uma gravidez, sendo aconselhável uma avaliação anual.

4. Métodos de barreira

Os métodos contracetivos de barreira impedem ou evitam a passagem dos espermatozoides no útero, evitando uma gravidez. Estes métodos estão facilmente disponíveis. Estão disponíveis os métodos contracetivos mecânicos, o preservativo masculino e feminino, e o método contracetivo químico, o espermicída.

Os métodos de barreira não são recomendados como método de contraceção isolado nos casos em que a gravidez é contraindicada, devido à maior taxa de falhas do método.

4.1 Preservativo masculino

O preservativo masculino pode ser de látex ou de poliuretano (e outros plásticos). O preservativo de látex é o mais utilizado e mais barato. O preservativo de poliuretano e outros plásticos está associado à menor ocorrência de alergia e a uma maior sensibilidade, mas pode romper ou deslocar-se mais frequentemente.

O preservativo previne as infeções sexualmente transmissíveis, como o VIH, o HPV, a hepatite B, a clamidia, a gonorreia, a sífilis e o herpes genital. Tem como vantagem não estar associado a efeitos secundários e ser de fácil utilização.

Tem como desvantagem a sua eficácia contracetiva estar dependente da sua correta e sistemática utilização (devendo ser colocado antes da penetração), podendo ter uma taxa de falha de 3 a 14%. Para além disso, pode haver rutura ou deslocação do preservativo durante a relação sexual, o que aumenta o risco de falha do método. Pode também haver alergia ao lubrificante ou ao látex.

Devem ser tidas em consideração algumas precauções na utilização do preservativo: os lubrificantes oleosos não devem ser utilizados com os preservativos de látex pois diminuem a sua eficácia, devendo ser preferido um lubrificante aquoso; o tratamento com cremes vaginais pode danificar o preservativo; deve ser respeitada a validade do preservativo.

4.2 Preservativo feminino

O preservativo feminino tem a forma de um cilindro fechado na porção distal que é introduzido na vagina, e possui um anel flexível que adere na vulva (cobre os pequenos lábios da vulva) e permanece aberto. É constituído por poliuretano. O preservativo pode ser colocado na vagina até 8 horas antes da relação sexual.

Tal como o preservativo masculino, permite a prevenção das infeções sexualmente transmissíveis (VIH, o HPV, a hepatite B, a clamídia, a gonorreia, a sífilis e o herpes genital). Tem como vantagem não estar associado a efeitos secundários. O fato de ser fabricado em poliuretano permite que sejam utilizados lubrificantes oleosos. O preservativo feminino é mais resistente do que o preservativo masculino de látex sendo menos frequente a sua rutura.

Tem como desvantagens ser necessária a aprendizagem da sua correta colocação, estando associado a uma taxa de falha do método de 5 a 20%, e ser mais caro do que o preservativo masculino.

Deve ser tido em atenção que o preservativo masculino e feminino não pode ser utilizado em simultâneo, pelo risco de aderência.

4.3 Espermicida

O espermicida é uma substância química que destrói os espermatozoides. Este deve ser colocado profundamente na vagina em cada relação sexual. Em Portugal, está disponível o cloreto de benzalcónico, sob a forma de comprimidos vaginais.

Este método, quando utilizado isoladamente é pouco eficaz, devendo ser associados a outro método contracetivo, e não protege contra as infeções sexualmente transmissíveis.

Tem como vantagem ser de fácil utilização, poder melhorar a lubrificação vaginal e não ter efeitos secundários.

Tem como desvantagens ser pouco eficaz, ser dependente da sua correta utilização, poder provocar uma reação alérgica ou irritativa (na mulher ou no homem) e aumentar o risco de infeções urinárias. Alguns espermicidas têm de ser colocados na vagina pelo menos 10 minutos antes da ejaculação e não devem ser realizados duches vaginais nas 6 horas seguintes.

O espermicida não deve ser utilizado nas mulheres com risco acrescido de infeção por VIH.

5. Métodos naturais

Os métodos naturais baseiam-se na identificação das fases do ciclo menstrual em que probabilidade de haver uma gravidez é maior. A mulher tem de identificar o período fértil com base nas suas alterações fisiológicas e no conhecimento de que o óvulo é viável cerca de 2 dias após a ovulação e o espermatozoide tem capacidade de fecundar 3 a 5 dias após a ejaculação.

Neste período deve haver abstinência sexual ou ser utilizado um método de barreira.
Estes métodos podem ser com base no calendário, na temperatura basal e no muco cervical.
Para a correta utilização destes métodos são necessários vários ciclos (meses) para aprender a identificar o período fértil. Nos casos de ciclos irregulares isto pode ser extremamente difícil. Estes métodos são pouco eficazes, não protegem contra as doenças sexualmente transmissíveis e podem ser necessários longos períodos de tempo de abstinência.

Saiba, aqui, tudo sobre o ciclo menstrual.

5.1 Tipos de métodos

No método do calendário o período fértil é identificado com base na duração dos 6 ciclos menstruais anteriores. O período fértil calcula-se subtraindo 10 dias ao número de dias do ciclo mais longo e 20 dias ao número de dias do ciclo mais curto.

O método da temperatura basal baseia-se no aumento da temperatura basal (cerca de 0,5ºC) após a ovulação. As relações sexuais desprotegidas só devem iniciar 3 dias depois da elevação da temperatura.

O método do muco cervical baseia-se no fato de as características do muco cervical se alterarem na peri-ovulação, este torna-se mais claro, abundante e tem maior elasticidade. O período fértil começa no dia em que o muco fica com estas características e termina 3 dias depois do seu desaparecimento.
O método da temperatura basal e do muco cervical podem ser utilizados em simultâneo (método sintotérmico).

O método do dia standard define o período fértil do 8º ao 19º dia do ciclo. Este só deve ser utilizado em mulheres com ciclos menstruais de 26 a 32 dias.

A amenorreia lactacional pode ser utilizada quando a mulher está em amenorreia (não menstrua), amamenta em exclusivo e o intervalo entre as mamadas é inferior a 6 horas e a criança tem menos de 6 meses.

O coito interrompido é um método ainda utilizado, requerendo o auto-controlo do homem. Este método tem pouca eficácia e não protege contra as doenças sexualmente transmissíveis.

6. Esterilização

A esterilização consiste na intervenção que evita uma gravidez de forma definitiva. Este método está indicado para as mulheres que não pretendem ter mais filhos ou em que a gravidez é contra-indicada.

A Legislação Portuguesa (Lei 3/84 – Art.º 10.º) permite a esterilização voluntária nas mulheres com mais de 25 anos de idade e nos casos em que a esterilização tem indicação médica é dispensado o limite de idade.

A taxa de arrependimento da mulher é maior quando a esterilização é realizada em idades mais precoces (menos de 30 anos), quando é realizado no período pós-parto, nas nulíparas (sem filhos) e nas que têm problemas conjugais. As cirurgias que pretendem reverter a esterilização têm uma baixa taxa de sucesso e podem estar associadas a maior risco de complicações, dependendo do tipo de esterilização prévio. Como alternativa, o casal pode recorrer a técnicas de procriação medicamente assistida para conseguir uma gravidez.

A esterilização pode ser feminina ou masculina, sendo ambos métodos definitivos. A esterilização feminina é realizada através da laqueação de trompas e esterilização masculina através da vasectomia.

6.1 Laqueação de trompas

A laqueação de trompas consiste numa cirurgia em que as trompas são seccionadas ou ocluídas bilateralmente, não permitindo a passagem do espermatozoide. A cirurgia pode ser realizada por laparotomia (barriga aberta) ou, mais frequentemente, por laparoscopia. Estes procedimentos são habitualmente simples e realizados em regime de ambulatório (internamento de muito curta duração).

Este é um método muito eficaz mas também dependente da técnica cirúrgica realizada.
Este método tem como vantagens ser seguro, eficaz, definitivo e não ter efeitos secundários ou hormonais. Tem como desvantagens poder estar associado, como qualquer cirurgia, a riscos cirúrgicos (como por exemplo, de infeção, hemorragia, etc.).

7. Contraceção de emergência

A contraceção de emergência, também conhecida como a pilula do dia seguinte ou contraceção pós-coital, é realizada quando ocorre uma relação sexual desprotegida e existe o risco de gravidez. Pode também estar indicada a sua utilização nos casos de falha ou suspeita de falha do método contracetivo. Os métodos contracetivos de emergência devem ser utilizados de forma excecional, devendo ser uma oportunidade para adequar o método contracetivo da mulher.

A eficácia desta contraceção é difícil de quantificar uma vez que é utilizada nas situações em que existe o risco de ocorrer uma gravidez, mas não sabemos quantas iriam ocorrer. Sabe-se, no entanto, que quanto mais cedo for instituída maior é a taxa de sucesso, devendo a primeira toma ocorrer o mais breve possível após a relação sexual.

Com o objetivo de inibir a ovulação e tentar prevenir a gravidez, pode ser utilizado o progestativo levonorgestrel ou o acetato de ulipristal (atividade mais intensa), sob a forma de um comprimido único. O levonorgestrel pode ser utilizado até 72 horas depois da relação sexual e o acetato de ulipristal até 5 dias depois. Esta contraceção pode estar associada a alguns efeitos gastrointestinais (náuseas e vómitos), cefaleias (dores de cabeça), dores pélvicas (zona inferior da barriga) e metrorragia (perda de sangue). A menstruação surge habitualmente 3 semanas após a toma da medicação.
Com o objetivo de prevenir a implantação no útero de uma possível gravidez pode ser utilizado o dispositivo intra-uterino de cobre. Este deve ser colocado até 7 dias após a relação sexual. A sua colocação pode estar associada a dor abdominal (barriga), hemorragia (sangramento) uterina, infeção, perfuração do útero ou à sua expulsão.

Se não houver uma menstruação nas 3 semanas seguintes deve ser feito um teste de gravidez para a confirmação e identificação precoce de uma possível gravidez.

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