Dismenorreia

Dismenorreia (dores menstruais)

Dores menstruais

Dismenorreia é o termo clínico para nos referirmos à menstruação dolorosa ou dores menstruais. É um problema comum, e, em algum grau, a maioria das mulheres sente alguma dor ou desconforto durante uma menstruação espontânea. Por ser tão comum, é frequentemente desvalorizada, mas por vezes merece avaliação, por interferir com o bem-estar da adolescente ou mulher.

Os cataménios (período, menstruação) geralmente provocam dor ligeira, não havendo, na grande maioria dos casos, motivo para preocupação.

A dor pode variar bastante de intensidade entre mulheres, mas quando dores fortes prejudicam o bem-estar e interferem no dia-a-dia, uma de várias doenças pode ser a causa deste problema. Os casos de dores muito intensas, atípicas (ver dismenorreia primária, abaixo), merecem avaliação pelo médico ginecologista. O seu médico despistará outras causas para as dores (doenças) e delineará o melhor tratamento.

Durante a menstruação ou período menstrual, formam-se compostos (prostaglandinas) que causam contrações uterinas e provocam dores. O aumento de pressão com estas contrações pode até diminuir a quantidade de sangue que consegue chegar ao útero, o que causa sintomas de isquemia (diminuição de oxigénio nas células). Esta isquemia passageira pode ser ela própria causa de dor intensa.

Fatores de risco para dismenorreia

Mulheres jovens, com menstruação abundante, fumadoras, sem filhos estão mais propensas a este fenómeno. A magreza (Índice de Massa Corporal inferior a 20Kg/m2) e ciclos longos e/ou irregulares aumentam também o risco/gravidade dos sintomas. No entanto, e por ser tão frequente, muitas mulheres não têm nenhum destes fatores de risco.

No caso da dismenorreia secundária, algumas patologias são frequentemente causa de dismenorreia (ver abaixo).

Saiba, aqui, tudo sobre menstruação ou período menstrual.

Dismenorreia primária

Este é, de longe, o diagnóstico mais frequente de dismenorreia. Tratam-se de dores menstruais sem uma causa patológica identificável. Por ser tão frequente, a dismenorreia é muitas vezes desvalorizada.

A dismenorreia primária aparece habitualmente pouco depois da menarca (primeira menstruação). Mais de 80% das mulheres que sofrem deste problema iniciaram dores até 4-5 anos após a primeira menstruação. A dor está relacionada com contrações uterinas frequentes e descoordenadas, iniciadas pela libertação de compostos (prostaglandinas) aquando a descamação endometrial durante a menstruação. Isquemia (falta de oxigénio nas células) causada pelo aumento da pressão uterina acima da pressão arterial piora os sintomas.

A dor inicia pouco antes ou com a menstruação, diminuindo ao longo de horas a dias. É muitas vezes intermitente, em cólica, com alturas de agravamento, mas pode ser também uma dor “surda” e contínua, no abdómem inferior. A dor pode estar presente nas costas e mesmo nas pernas (coxas). É muitas vezes acompanhada de outros sintomas, incluindo náusea (enjoo), diarreia, mal-estar geral e cansaço.

Os exames são habitualmente normais, nomeadamente a ecografia e/ou análises. No entanto, se a história deixar dúvidas e/ou os sintomas forem significativos, o médico poderá sugerir algum exame para esclarecer ou despistar uma causa secundária das dores (ver amenorreia secundária, abaixo).

Com o avançar da idade e com os partos, a tendência é de os sintomas se atenuarem.

Sendo a dismenorreia primária um diagnóstico de exclusão (válido quando as causas patológicas foram eliminadas), é importante valorizar sintomas que interfiram no dia-a-dia. Na dúvida deve consultar o seu médico de família ou ginecologista.

Dismenorreia secundária

Algumas características das dores menstruais sugerem uma causa patológica:

  • Início das dores menstruais muitos anos após a primeira menstruação (menarca), ou depois dos 25 anos;
  • Irregularidades menstruais associadas (ver menstruação irregular);
  • Ausência de mal-estar, fadiga, enjoos, dor de cabeça, tonturas e dores nas costas;
  • Agravamento dos sintomas ao longo do tempo;
  • Dores nas relações sexuais.

A dismenorreia secundária aparece muitas vezes depois de um período de ausência de dor (anos, por exemplo), e está associada a uma causa habitualmente identificável.

Possíveis causas de dismenorreia secundária são:

  • Endometriose - Esta patologia atinge muitas mulheres e pode manifestar-se por dismenorreia apenas. Endometriose, habitualmente, não dá dores apenas durante a menstruação, e pode ser causa de dores muita intensas que podem incapacitar para o trabalho. Saiba, aqui, tudo sobre endometriose.
  • Adenomiose - É uma doença relacionada com endometriose, mas confinada ao útero. Esta doença manifesta-se com dores menstruais depois dos 35 anos.
  • Fibromas, Miomas ou Leiomiomas uterinos - São tumores benignos do músculo uterino que podem, em algumas situações, causar dores menstruais e/ou causar irregularidades menstruais. Esta patologia torna-se muito comum depois dos 35 anos, pelo que só será motivo de preocupação se causar sintomas importantes, como dismenorreia. Os miomas normalmente não são causa de dores em mulheres muito jovens. Saiba, aqui, tudo sobre mioma uterino.
  • Outras causas anatómicas – São mais raras e podem causar dores muito intensas logo após a primeira menstruação (menarca). Estas dores podem começar antes da menstruação e terminar bem depois do fluxo menstrual terminar.
  • Doença inflamatória pélvica - É uma doença infeciosa do sistema reprodutivo feminino. Pode ser causa de dores menstruais.

Diagnóstico das dores menstruais

Como vimos, na maioria das situações, a história clínica é suficiente para eliminar as causas tratáveis de dismenorreia.

Tratamento das dores menstruais

A dismenorreia, especialmente a primária, é tratada habitualmente com fármacos. São usados, sobretudo, anti-inflamatórios não esteroides (AINE’s), como ibuprofeno, diclofenac, etc. Esta classe de medicamentos permite aliviar a dor melhor e mais rapidamente do que tomar paracetamol, por exemplo. Os AINES atuam ao reduzir a produção de prostaglandinas, que vimos estarem na origem dos sintomas, daí serem um remédio mais eficaz para acabar com as dores.

A maioria destas medicações (AINES) são de venda livre em farmácia, e são todas, de uma forma geral, eficazes no tratamento dos sintomas. Podem ser iniciadas assim que os sintomas se apresentem ou assim que se preveja que vão começar (primeiros indícios da menstruação).

A pílula pode ajudar a controlar a dor. Os anticoncetivos melhor estudados neste contexto são os combinados (pílula com estrogénio e progestativo), mas todos poderão ser úteis. Não existe necessidade em efetuar intervalos na toma dos comprimidos, ou seja, a pílula pode ser tomada todos os dias sem interrupção. Isto pode levar a que não hajam perdas de sangue no intervalo sem comprimidos/anel vaginal, diminuindo ainda mais as dores.

Os dispositivos intrauterinos (DIU) de cobre não são recomendáveis às mulheres com muitas dores menstruais, porque as podem agravar (são, no entanto, excelentes opções fora deste contexto). O sistema intrauterino com levonorgestrel não tem este inconveniente e pode também melhorar ou resolver os sintomas.

Outras terapêuticas poderão ter efeitos variáveis, como magnésio, outros fármacos (que não AINE’s) ou vitaminas.

Tratamentos não farmacológicos incluem a acupuntura e aplicação pélvica de calor, ambos estudados neste âmbito com resultados de equivalência a alguns analgésicos. Neste contexto, como tratamento caseiro ou natural, pode fazer a aplicação pélvica de calor, colocando, por exemplo, toalhas húmidas quentes sobre a pelve (“fundo da barriga”). Este procedimento pode resultar em algum alívio e até complementar a terapêutica com medicamentos.

O tratamento cirúrgico para a dismenorreia primária foi tentado com resultados pouco satisfatórios e efeitos secundários importantes, pelo que não será uma opção para a maioria das mulheres.

Quando a causa é patológica, outras opções poderão ser aconselháveis, em casos selecionados e de acordo com a doença identificada. No caso da endometriose, por exemplo, outros fármacos ou tratamento cirúrgico (cirurgia ou operação de endometriose) poderão estar indicados.

Veja mais informação sobre tratamentos em cada uma das patologias atrás mencionadas.

Importa reforçar a importância de consultar o seu médico ginecologista se subsistirem dúvidas acerca da causa ou agravamento dos sintomas. Não se auto medique sem uma consulta e aconselhamento prévios e tenha atenção aos sinais de alarme descritos atrás.

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