Alergia aos ácaros

Imagens de alergia aos ácaros

O que é alergia aos ácaros?

Os ácaros são pequenos animais microscópicos (não são visíveis ao olho humano) que podem provocar em determinadas pessoas reações alérgicas, maioritariamente com implicações no sistema respiratório. É possível tomar determinadas medidas para, por um lado, reduzirmos a exposição aos ácaros e, por outro lado, aliviarmos a sintomatologia (veremos como em tratamentos e medidas de prevenção).

As pessoas predispostas a ter alergia formam anticorpos da classe IgE contra uma gama ampla e variada de proteínas presentes no meio ambiente, em especial no interior de habitações e edifícios. Atualmente, nos países desenvolvidos, a maior parte das pessoas passa grande parte do seu tempo em espaços fechados, e muito pouco tempo ao ar livre. Esta modificação dos hábitos de vida teve implicações na alteração da frequência de muitas doenças crónicas, com especial incidência nas doenças alérgicas respiratórias. Além disso, a maioria das habitações dos países industrializados, devido à melhoria nos sistemas de isolamento térmico, consegue manter temperaturas uniformes e amenas. Quando se permanece largos períodos de tempo nestes ambientes fechados, respiramos ar rico em substâncias potencialmente alergénicas em concentrações muito superiores ao exterior, o que facilita o aparecimento de alergia ao pó.

O pó da casa é a principal fonte de alergénios do interior das habitações, e é uma mistura complexa composta por matéria inorgânica e orgânica, que inclui finas partículas de descamação de pele humana e animal (se houver animais domésticos em casa), fibras, esporos de fungos, vírus, insetos, restos de alimentos e de plantas de interior e ácaros. O pó não produz só alergia, pode funcionar como irritante para as vias aéreas. Os ácaros constituem os alergénios mais frequentes indutores de patologia alérgica. Por isso, muitas vezes se usa a expressão “alergia ao pó” como se fosse um significado de alergia aos ácaros. A alergia a constituintes do ambiente interior predispõe mais facilmente à asma do que a alergia a alergénios de exterior.

A alergia aos ácaros traduz-se em sintomas respiratórios (rinite e/ou asma e/ou conjuntivite) e resulta da predisposição genética e da exposição (quantidade e tempo) a ambientes com alto conteúdo de ácaros, como são as habitações modernas e sobretudo num país com um clima ameno como é Portugal. Algumas pessoas podem fazer reação à picada de ácaros e ter lesões cutâneas.

O que são ácaros?

Os ácaros pertencem a uma subclasse de aracnídeos. Existem quase 50.000 espécies descritas de entre um total entre 100.000 a 500.000 espécies que ainda não foram classificadas. A maioria são animais microscópicos, não são visíveis ao olho humano - os ácaros domésticos medem entre 0.2 a 0.5 milímetros.

Os ácaros de armazenamento são uma ampla gama de famílias, géneros e espécies, que se encontram principalmente em alimentos armazenados, cereais, farinhas, celeiros e feno. Mas estes ácaros também podem estar no pó doméstico e, por isso, a exposição a estes ácaros também pode ocorrer em casa, em especial se houver problemas de humidade.

Os ácaros convivem com o ser humano e é interessante notar que os ácaros em si são inofensivos para o ser humano, sendo os seus resíduos fecais que possuem um grande poder alergénico.

Os ácaros alimentam-se preferencialmente de partículas resultantes da descamação da pele humana e dos animais domésticos, fungos e outros produtos orgânicos. Eles estão presentes de uma forma quase constante e universal nas nossas habitações, mas ainda que estejam presentes de forma aleatória em toda a casa, é nos locais onde existe maior concentração de detritos humanos que os ácaros atingem um número mais significativo, nomeadamente: colchões, almofadas, cobertores e cobertas de cama, alcatifas, sofás, tapetes ou cortinas espessas.

Tipos de ácaros

Devido à diferente morfologia que apresentam as múltiplas espécies, podemos encontrar ácaros adaptados a viver em quase todos os habitats do planeta. O intervalo de temperatura para a sua reprodução é muito amplo (5ºC - 30ºC) embora a temperatura ótima ronde os 20ºC.

Apesar de tudo, calcula-se que apenas cerca de 25 espécies de ácaros estejam relacionadas com as doenças alérgicas no ser humano. Os ácaros implicados com mais frequência em patologia alérgica pertencem aos Astigmata, sendo que destes unicamente 3 super-famílias são responsáveis por causar problemas alérgicos:

  • Pyroglyphoidae: a esta família pertencem os Dermatophagoides pteronyssinus, Dermatophagoides farinae e Euroglyphus maynei, que são sem dúvida os indutores da maioria das sensibilizações alérgicas na Europa e Estados Unidos da América;
  • Glycyphagodae: Lepidoglyphus destructor e Blomia tropicalis são cada vez mais reconhecidos como responsáveis de quadros alérgicos em Portugal continental e nas ilhas, respetivamente;
  • Acaroidae: o Acarus siro e Tyrophagus putrescentiae são as espécies principais relacionadas com situações de alergia dentro desta família.

As condições ambientais que influenciam a presença de ácaros são a temperatura e a humidade. O seu ciclo de crescimento (desde ovo até adultos) é de 25 dias a 25ºC, e a maioria dos ácaros vive cerca de 3 meses, ao longo dos quais depositam ovos que podem conter cerca de 20 a 40 novos ácaros.

As temperaturas ótimas para os ácaros domésticos rondam os 20-30ºC. A humidade relativa ótima para o D. pteronyssinus é superior a 75% e para o D. farinae oscila entre 50 e 60%. A proliferação dos ácaros nestas condições é mais rápida. Assim sendo, embora os ácaros estejam presentes durante todo o ano, os meses de primavera e outono, pelas condições de temperatura amena e elevada humidade relativa, são os que favorecem melhores e maiores condições convenientes à reprodução dos ácaros. A baixa altitude e proximidade a zonas marítimas e/ou fluviais são fatores que também resultam em concentrações mais elevadas, e ainda maiores se houver presença de fungos.

Outros alergénios

Além dos ácaros, outras fontes de alergia existem no interior das habitações, nomeadamente: fungos (sobretudo em ambientes com mofo), animais de estimação (especialmente gato e cão, indutores de alergia através do pêlo e caspa/detritos de pele, mas também urina e saliva), outros constituintes do pó e poeira (fragmentos e fibras vegetais, vírus, insetos, restos de alimentos e de plantas de interior).

Também no interior das habitações, mas sobretudo no exterior, é frequente a presença de alergénios de pólen, no caso de Portugal sobretudo pólen das gramíneas. É frequente a mesma pessoa sofrer de alergia aos ácaros e ao pólen das gramíneas.

A presença de alergias alimentares (alergia ao leite, alergia ao ovo) nos primeiros anos de vida aumenta o risco de vir a desenvolver alergias respiratórias aos ácaros, mais tarde. Por outro lado, ter alergia aos ácaros aumenta a possibilidade de vir a ter alergia a mariscos, uma vez que partilham a proteína tropomiosina que pode ser responsável por um síndrome de reatividade cruzada.

Os alergénios que mais frequentemente originam reações cutâneas são o níquel (metal frequente em bijuterias) e o látex, mas estas alergias não têm relação com as alergias a ácaros.

Posso ser alérgico a mais que um alergénio?

Sim! Aliás, ser alérgico a mais do que um alergénio é a situação mais frequente. Habitualmente, ter apenas uma alergia ocorre no início e é uma situação transitória, e rapidamente o organismo progride para reconhecer e sensibilizar a cada vez mais alergénios.

A probabilidade de ter mais alergias aumenta quanto mais tempo passar desde que o organismo iniciou a marcha alérgica. Porém, algumas pessoas mantêm apenas uma única alergia toda a vida.

Alergia aos ácaros - sinais e sintomas

As reações alérgicas aos ácaros são na maioria dos casos de tipo respiratório: rinite e/ou asma. A sensibilização alérgica a ácaros provoca sintomas respiratórios em cerca de 30% dos portugueses, e é a responsável pela maior parte das situações de asma.

No caso da rinite alérgica, o doente apresenta sintomas sobretudo de manhã, com crises de espirros ao levantar da cama, comichão nasal, pingo e/nariz muito congestionado. Em muitas situações, é frequente sentir o nariz obstruído de noite, e consequentemente ter de respirar pela boca originando secura e sensação de sede ao acordar. Os sinais e sintomas podem melhorar durante o dia e voltar à noite no regresso a casa, ou em situações já mais avançadas manterem-se ativos durante todo o dia. Também é frequente terem manifestações intensas quando fazem arrumações ou entram em locais empoeirados. Os sintomas de nariz podem acompanhar-se de sintomas oculares, como comichão ou olhos vermelhos - sinais de conjuntivite alérgica. Porém, esta pode surgir isolada, em doentes que não têm rinite, e pode ser a única manifestação da alergia.

A asma provoca episódios de falta de ar, pieira/chiadeira no peito, tosse ou sensação de aperto no peito, que pioram muitas vezes de noite com o exercício físico ou riso à gargalhada. A tosse frequente, mesmo sem outros sintomas respiratórios associados, muitas vezes é também uma manifestação de alergia aos ácaros.

Saiba, aqui, tudo sobre asma.

Também tem sido sugerido que os ácaros desempenham um papel na alergia na pele como é o caso da dermatite atópica ou eczema atópico, como desencadeantes ou responsáveis por crises. Nestes casos surgem manchas na pele, manchas vermelhas que provocam intenso prurido (comichão).

A duração da sintomatologia é variável. Os sintomas de alergia aos ácaros são na maior parte das vezes crónicos, vão-se instalando progressivamente e tendencialmente vão-se alargando ao longo de todo o ano (embora possa haver épocas do ano como a primavera e outono em que pioram), o que muitas vezes dificulta que o doente se aperceba da relação entre os sintomas e uma potencial alergia.

Em que idade se manifesta a alergia?

A alergia a ácaros pode aparecer em qualquer idade. No recém nascido, no bebé de meses, e mesmo durante a primeira infância, muitas vezes não se consegue detetar a alergia aos ácaros (em análises ou testes) embora se possam já manifestar os sintomas respiratórios. Nos anos seguintes, na criança em idade escolar, na adolescência e em adultos já se identifica facilmente nos exames esta alergia.

Ao contrário do que geralmente se pensa, este problema pode ser uma alergia tardia que se manifesta de novo, apenas em idade adulta, sem qualquer antecedente infantil.

Diagnóstico da alergia aos ácaros

Como em qualquer outra situação de suspeita de doença alérgica, a entrevista médica durante a consulta é uma ferramenta essencial para determinar a possibilidade e probabilidade de se tratar de alergia, e decidir pelos exames. Os principais exames para diagnóstico das alergias são os testes cutâneos e as análises de sangue.

1. O teste cutâneo realizado por especialistas é a forma mais rápida (o resultado surge em 15 minutos), simples, muito eficaz, e barata de saber aquilo que causa alergia. Este exame é praticamente indolor, muito fiável quando realizado por um profissional com experiência, e pode ser feito em qualquer idade.

E se o teste for negativo?

Pode haver alergia com teste cutâneo negativo... Os exemplos mais comuns são:

  • Crianças muito pequenas, quando o componente alérgico ainda não está bem definido;
  • Crianças que tenham tomado medicamentos anti-alérgicos nos dias anteriores;
  • Quando os testes são mal executados (é por isso que deve procurar sempre a ajuda do médico alergologista (especialista em alergologia) - é a melhor maneira de evitar erros);
  • Quando o mecanismo imunológico não é mediado por anticorpos IgE.

2. As análises de sangue também permitem identificar alergias, mas são um método
mais caro e que não é imediato. Podem ser importantes em crianças com problemas crónicos de pele como eczema ou urticária, ou em crianças sob o efeito de anti-histamínicos (que anulam o resultado dos testes).

Complicações da alergia aos ácaros

A alergia aos ácaros pode causar rinite alérgica, conjuntivite alérgica, tosse e uma das complicações é mesmo a possibilidade de desenvolver asma. Os riscos são maiores em quem tem história de alergias na família, em quem tem eczema nos primeiros anos de vida, e em quem está mais exposto a ambientes interiores.

Os ácaros podem contaminar determinados alimentos elaborados com farinhas enriquecidas utilizadas para bolos ou doces, e com isso produzir quadros de anafilaxia (a manifestação mais grave de alergia). No entanto, estas situações são muito raras.

Saiba, aqui, o que é anafilaxia.

A alergia aos ácaros tem cura?

Normalmente não se assiste a uma cura e habitualmente esta alergia tende a manter-se ou mesmo a piorar ao longo da vida. Mas existem tratamentos que minimizam os sintomas e que potenciam a estabilidade das doenças alérgicas.

Saiba, de seguida, como tratar a alergia aos ácaros.

Alergia aos ácaros - tratamento

O tratamento medicamentoso não se destina à alergia, mas sim às doenças por ela causadas - rinite, conjuntivite, tosse, asma, etc.. O tratamento vai apenas aliviar os sintomas destas patologias. Os medicamentos ou remédios anti-alérgicos mais utilizados incluem os conhecidos anti-histamínicos. Mas para tratar a rinite pode ser necessária aplicação de sprays nasais, e para a asma a utilização de inaladores. As reações alérgicas graves (anafilaxia) são tratadas com adrenalina, mas essas são situações raríssimas no contexto de alergia aos ácaros.

Uma opção muito interessante de tratamento que se pode fazer e que se destina especificamente à alergia, é a dessensibilização com imunoterapia específica (conhecida vulgarmente como “vacinas” de alergia. São utilizadas formulações de acordo com a sensibilização que cada pessoa apresenta, sendo possível utilizar misturas de ácaros (ácaros mix), ou duas famílias diferentes, por exemplo Dermatophagoides e Lepidoglyphus, bem como em certos casos também juntar outras alergias, por exemplo pólens.

Saiba, aqui, tudo sobre imunoterapia específica.

Como prevenir ou eliminar os ácaros?

A divisão da casa que requer maior atenção é o quarto. O mobiliário deve ser simples, com superfícies facilmente laváveis e que devem ser limpas com pano húmido.

Remover objetos que não sejam indispensáveis, como pequenas decorações, brinquedos, bonecos de peluche, livros, aparelhagens, etc.. Evitar tapetes ou carpetes no chão, papel de parede (preferir paredes lisas e pintadas) e cortinas. O colchão é o local onde se depositam mais ácaros e por isso é fundamental a sua regular limpeza com aspiração frequente. A roupa de cama deve ser lavada frequentemente e a temperaturas superiores a 60º. Existem coberturas especiais anti-ácaros para o colchão e travesseiro consideradas eficazes no controlo desta exposição.

A limpeza das restantes divisões da casa deve ser também frequente e preferencialmente utilizando aspirador em vez de varrer. Com os aparelhos de aspiração comum é possível que muitas partículas de pó circulem pelo ambiente, por isso pode ser necessário utilizar máscara durante as limpezas ou preferir um aspirador com filtro anti-ácaros. Deve ser prestado especial cuidado na limpeza do sofá por ser também um local preferencial dos ácaros.

Não existe nenhum tipo de remédio caseiro ou tratamento natural para eliminar ou matar os ácaros. Manter um arejamento e ventilação convenientes, abrir janelas e deixar entrar o sol são recomendados para os combater. Existem agentes químicos anti-ácaros (spray anti ácaros ou outros produtos) que prometem acabar com o problema, mas não substituem a limpeza. Também não existe nenhum veneno ou inseticida para esse fim.

Algumas outras medidas que podem ter interesse em algumas situações incluem o controlo da humidade através de desumidificadores, evitar o aquecimento excessivo da casa, promover ventilação adequada e evitar as ventoinhas porque movimentam as partículas de ar e pó. Também pode ser necessário confinar os animais domésticos a apenas algumas zonas da casa e preferencialmente nunca permitir no quarto.

Mesmo com estas medidas nunca conseguimos eliminar completamente os ácaros. Eles fazem parte do nosso habitat natural e vivem sempre entre nós. Conseguimos diminuir a sua quantidade, mas não os erradicar completamente.

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