Intestino Preso, Prisão de Ventre

O que é bom para o intestino preso?

O que é obstipação?

A obstipação intestinal, também vulgarmente conhecida como prisão de ventre ou intestino preso ou “preguiçoso”, é uma condição comum que afeta pessoas de todas as idades e que pode ter um significado diferente para diferentes indivíduos.

Habitualmente refere-se a dejeções pouco frequentes (empiricamente, o diagnóstico de obstipação poderá ser colocado se o número de dejeções for inferior a três vezes por semana), mas também pode traduzir uma diminuição no volume ou peso das fezes, uma dificuldade para evacuar, com necessidade de fazer força (“puxar”) para esvaziar incompletamente o reto (por exemplo, provocada pela existência de fezes duras e/ou grossas) ou, ainda, pela necessidade do uso de clisteres, supositórios ou outros laxantes para manter a regularidade do trânsito intestinal.

A obstipação pode ocorrer em bebés, crianças e adultos. Estima-se que cerca de um em cada sete adultos e até um em cada três crianças poderá vir a sofrer de obstipação em qualquer momento.

A condição afeta duas vezes mais mulheres do que homens e também é mais comum em adultos mais velhos e durante a gravidez.

Obstipação crónica

Cerca de 80% das pessoas sofrerão de obstipação em algum momento das suas vidas, na maioria das vezes transitoriamente.

A gravidade da obstipação varia de pessoa para pessoa. Muitas pessoas só experimentam obstipação por um curto período de tempo – obstipação aguda , mas para outros, a obstipação pode constituir uma condição de longo prazo (obstipação crónica) que causa dor significativa e desconforto, transformando-se num grave e duradouro problema, com implicações importantes na qualidade de vida.

Obstipação - causas

A obstipação geralmente ocorre quando as fezes permanecem no cólon (intestino grosso) por muito tempo, onde é absorvida muita água, fazendo com que estas se tornem duras e secas, dificultando a sua circulação, expulsão.

Muitas vezes, é difícil identificar a causa exata, podendo existir várias causas, possivelmente simultâneas, responsáveis pela obstipação.

No entanto, há uma série de fatores que contribuem para a condição, incluindo:

  • ingestão insuficiente de fibras, como frutas, legumes e cereais;
  • ingestão insuficiente de líquidos;
  • uma mudança na rotina ou estilo de vida, como uma mudança nos hábitos alimentares;
  • estilo de vida sedentário / falta de exercício;
  • falta de privacidade para usar a casa de banho;
  • ignorar repetidamente desejo de defecar;
  • efeitos secundários de certos medicamentos;
  • ansiedade, stress ou depressão;
  • gravidez.

Medicamentos que provocam obstipação

Muitos medicamentos como analgésicos, antidepressivos, tranquilizantes, anti-hipertensores, diuréticos, suplementos de ferro e de cálcio, antiácidos contendo alumínio, anti psicóticos (medicamentos para tratar a esquizofrenia e outras doenças mentais), analgésicos opiáceos como codeína e morfina, podem causar ou agravar a obstipação.

Adicionalmente, muitas pessoas que verdadeiramente não são obstipadas, podem tornar-se dependentes de laxantes, numa tentativa pouco recomendada de terem dejeções diárias, provocando a si próprios danos através deste abuso de laxantes.

Obstipação na gravidez

Cerca de duas em cada cinco mulheres experimentam obstipação durante a gravidez, principalmente durante as fases iniciais da gestação.

O corpo da mulher grávida e puérpera (pós-parto) produz mais a hormona feminina progesterona, que atua como um relaxante muscular. O intestino move normalmente as fezes e resíduos para o ânus, através de um processo conhecido como peristaltismo. Isto é, quando os músculos que revestem o intestino se contraem e relaxam num movimento ondulante. Um aumento na progesterona torna mais difícil a contração dos músculos do intestino, tornando mais difícil a mobilização das fezes.

Saiba, aqui, tudo sobre a obstipação na gravidez.

Outras condições

Em casos raros, a obstipação pode ser um sinal de uma condição subjacente, tais como: doenças auto-imunes como a esclerodermia, lúpus, ou ser consequência de doenças dos sistemas nervosos ou endócrino, como as doenças da tiróide, a esclerose múltipla, doença de Parkinson, AVC e lesões da medula.

Doenças que afetam o intestino, como o síndrome do intestino irritável, a doença de Crohn (uma condição que provoca inflamação crónica dos intestinos), o cancro do cólon e reto, ou mesmo a presença de uma fissura anal - um pequeno corte ou úlcera na pele dentro do ânus, podem também estar na origem ou agravamento da obstipação.

Obstipação infantil ou em crianças

A obstipação em bebés e crianças é bastante comum. Estima-se que até um em cada três crianças possa vir a sofrer de obstipação a qualquer momento. A má alimentação, o medo de defecar e falta de treino dos hábitos de utilização da casa de banho estão, muitas vezes, entre os fatores responsáveis.

Além de evacuações irregulares, uma criança com obstipação também pode ter qualquer um dos seguintes sintomas associados:

  • perda de apetite;
  • falta de energia;
  • irritação, indisposição, tristeza;
  • distensão abdominal;
  • flatulência e fezes com mau cheiro;
  • dor, desconforto abdominal.

Em alguns casos raros, a obstipação em recém-nascidos, bebés e crianças de meses ou anos, pode ser um sinal de doenças subjacentes, tais como:

  • a doença de Hirschsprung - que afeta a inervação do intestino, dificultando a passagem das fezes;
  • malformação anorretal - onde o reto e o ânus do bebé não se formam corretamente;
  • anormalidades da medula espinhal - incluindo condições raras, como espinha bífida e paralisia cerebral;
  • fibrose cística - uma condição genética que faz com que o corpo produza muco espesso e pegajoso, o que pode levar a obstipação.

Obstipação - sintomas

Quando se sofre de obstipação, a defecação torna-se mais difícil e menos frequente do que o habitual, levando a uma acumulação anormal de fezes e de gases no interior do intestino.

Esta acumulação provoca uma série de sinais e sintomas, entre os quais uma sensação de distensão (“inchaço”) e em alguns casos pode mesmo provocar dor abdominal, de ligeira a intensa, com características de moedeira ou mesmo cólica.

Quando as fezes são muito duras e/ou grossas, pode ser difícil a sua emissão através do ânus, causando, muitas vezes, dor anal e, em alguns casos, pode ser a causa de fissura anal (“corte” na pele do canal anal) ou mesmo hemorragia retal.
A obstipação grave pode levar à acumulação de substâncias tóxicas no organismo, o que pode causar uma indisposição geral e perda de apetite.

Também é frequente que nos casos de obstipação arrastada, a pessoa registe um aumento de peso (engorda).

Diagnóstico da obstipação

Como a obstipação pode ter múltiplas causas, é fundamental identificá-las corretamente, para que o tratamento seja o mais adequado e específico possível.

Sendo uma condição muito comum, na maior parte dos casos em que não há sintomas de alarme, o seu médico não necessita de efetuar quaisquer testes ou procedimentos, e confirmará um diagnóstico baseado nos seus sintomas e na sua história clínica.

Assim, o seu médico far-lhe-á algumas perguntas sobre a sua dieta, nível de exercício e se houve alguma mudança recente nas suas rotinas. Analisará os seus hábitos intestinais, sendo fundamental que não se sinta envergonhado em discutir isso, pois só assim será possível fazer o diagnóstico correto e excluir alguns sinais ou sintomas de alarme que poderão levar a investigação.

Um exame físico típico começará com o doente deitado de costas, enquanto o médico palpa o seu abdómen (barriga). Posteriormente, se indicado, deitar-se-á de lado, enquanto o médico realiza um exame retal (toque retal), usando uma luva com lubrificante. Com este exame é possível avaliar a presença de lesões a esse nível ou sentir impactamento fecal.

Se tal for necessário, procurar-se-ão causas anatómicas e funcionais, para as quais existem vários exames que podem ser efetuados.

Se estiver com sintomas graves, o seu médico poderá solicitar outros exames, como exames de sangue ou testes de tiróide, para diagnosticar ou descartar outras condições.

Outros testes que podem ser realizados incluem:

  • uma radiografia abdominal - onde a radiação de raios X é usada para produzir imagens do interior do abdómen;
  • exame de tempo de trânsito - onde após a toma uma série de cápsulas especiais que aparecem em raios-X, várias radiografias são realizadas em determinados momentos, para ver quanto tempo demora para as cápsulas passarem através do seu sistema digestivo;
  • manometria anorretal - onde uma pequena sonda com um balão numa extremidade é inserido no reto, permitindo medir a pressão de contração e relaxamento dos esfíncteres anais e avaliar o seu funcionamento;
  • a realização de uma colonoscopia ou de um clister opaco com duplo contraste, poderá ajudar a excluir ou confirmar causas anatómicas responsáveis pela obstipação, como pólipos, tumores ou divertículos.

Em muitas circunstâncias não se identifica a causa da obstipação, sendo então, a obstipação considerada não-específica ou primária.

Complicações da obstipação

A obstipação raramente causa complicações ou problemas de saúde a curto ou médio prazo, uma vez que o tratamento é geralmente eficaz, particularmente se iniciado precocemente.

Contudo, nos casos de obstipação de longo prazo (crónica), existe maior risco de algumas complicações como:

  • hemorróidas (vasos sanguíneos que existem na parte inferior do reto e canal anal);
  • dor, desconforto e hemorragia retal, que podem resultar do esforço continuado para defecar. Em alguns casos, o sangramento é o resultado de um pequeno corte na pele em volta do ânus (fissura anal), mas é mais frequentemente causado por congestão e rotura de hemorróidas. Outros sintomas associados às hemorróidas e fissuras, incluem dor e prurido (comichão) anal; o sangramento anal deve ser um sinal de alarme para que consulte o seu médico;
  • impactação fecal (fezes secas e duras que ficam acumuladas no reto, sendo muito difícil de expulsar naturalmente);
  • incontinência anal (perda involuntária de fezes ou gases pelo ânus);
  • prolapso retal – quando a porção terminal do intestino se exterioriza através do ânus;
  • cancro do intestino: a obstipação crónica, de longa data, pode causar ou favorecer o aparecimento deste grave problema, que é uma das principais causas de morte por cancro em adultos.

Como prevenir a obstipação?

A prevenção da obstipação passa, em primeiro lugar por uma dieta equilibrada, rica em fibras e com adequada ingestão de líquidos, e por adoção de um estilo de vida saudável, que contemple a prática regular de exercício físico.

Manter-se ativo reduz significativamente o risco de obstipação. Idealmente, deverá fazer pelo menos 150 minutos de atividade física por semana, como por exemplo caminhar. Desta forma, para além da redução do risco de obstipação, o paciente sentir-se-á mais saudável, com melhores, níveis de energia, humor e condição geral.

Outro conselho muito importante consiste em não ignorar a vontade de ir à casa de banho, pois tal pode aumentar significativamente as hipóteses de vir a sofrer de obstipação. Para isso, disponibilidade de tempo, privacidade e conforto são essenciais para o ato da defecação, só deste modo, se conseguirá regular o intestino.

Tente ir ao quarto de banho sempre à mesma hora em cada dia. Os intestinos tendem a funcionar quando nos levantamos, os de algumas pessoas mais rapidamente do que de outras, devendo dar-se tempo para começar e acabar a defecação, com sensação de completo esvaziamento fecal; mas não se sente e “puxe” com muita força. Qualquer desejo adicional de defecar durante o dia deverá ser satisfeito; de outro modo, a sensação no reto passará rapidamente.

Dieta para quem tem obstipação

Alimentos para “soltar o intestino”

Uma das melhores formas de prevenir ou atenuar a obstipação é a adoção de uma dieta equilibrada.

De facto, o melhor tratamento caseiro ou natural utiliza a alimentação como um forte aliado, considerando a ingestão de bons alimentos, que são aqueles que ajudam a amolecer as fezes, melhorando a função intestinal.

As fibras ajudam a prevenir a obstipação, assim como o reforço da ingestão de líquidos.

Alimentos líquidos

Beba água ou chá quando acordar e, pelo menos, dois copos ou duas chávenas destes ou outros líquidos durante ou no fim das refeições. Deverá ingerir caldos e sopas. A falta de líquidos é uma das principais causas de fezes duras.

Certifique-se, pois, de beber bastantes líquidos para evitar a desidratação, aumentando a sua ingestão nos dias de calor ou aquando a realização de exercício. Se tolerar o leite, este é também uma ótima fonte de aporte de água.

Em algumas pessoas, o café funciona como um bom estímulo para o reflexo da defecação.

Alimentos sólidos

Uma dieta variada é a chave para uma vida saudável.

É aconselhado comer alimentos ricos em fibras, pois são essenciais para o trânsito intestinal, contribuindo para a formação do volume fecal e evitando a obstipação. O aporte de fibras recomendado é de 25 a 30 gramas de fibra por dia. Dos alimentos ricos em fibra, incluem-se o farelo de trigo, pão integral, sementes e certas frutas (como o kiwi e a papaia) e vegetais.

Alternativamente, os suplementos de fibras vendidos em dietéticas e supermercados também são uma boa opção. Podem levar várias semanas a atingir a sua máxima eficácia, no entanto, não causam qualquer dano nem criam habituação, o que pode acontecer com o uso e abuso de alguns laxantes. Adicionalmente, as fibras proporcionam benefícios adicionais, como o controlo dos níveis de colesterol e a contribuição para a redução do risco de pólipos e cancro do intestino.

Alimentos a evitar

Entre os alimentos que causam obstipação e que se devem evitar:

  • alimentos ricos em açúcar, como refrigerantes, bolos, doces, bolachas chocolates;
  • alimentos ricos em gorduras, como fritos e comida pronta congelada;
  • alimentação do tipo ”fast food”;
  • carnes processadas, como enchidos;
  • banana.

Saiba, de seguida, como tratar a obstipação.

Obstipação - tratamento

Em certas situações de carácter temporário, o doente pode ser capaz de tratar a obstipação por si mesmo, fazendo mudanças simples na sua dieta e estilo de vida, tal como referido anteriormente.

A dieta e as mudanças do estilo de vida são recomendadas geralmente como o primeiro tratamento para a obstipação. Isso inclui aumentar gradualmente a ingestão diária de fibras e líquidos, bem como a realização de exercício físico.

Tente manter uma rotina (um lugar e hora do dia) para ir à casa de banho. respondendo, no entanto, ao padrão natural do seu intestino: quando sentir vontade, não adie!

Uma manobra que facilita a defecação é colocar os pés sobre um banquinho baixo enquanto está sentado na retrete, de modo que joelhos estejam acima da sua anca; Esta posição altera o ângulo da parte final do seu intestino e dos músculos pélvicos, facilitando a passagem das fezes.

No entanto, se tais alterações não surtirem efeito, a visita a um médico torna-se aconselhada.

Numa “crise” urgente de intestino muito preso, uma solução rápida que permite “soltar o intestino” quase de imediato é fazer um laxante, que consiste num remédio / medicamento, que vai atuar nas fezes ou na própria parede intestinal, e provocar uma dejeção. Os laxantes não são substâncias naturais para o intestino, e devem ser interrompidos assim que os hábitos normais intestinais sejam restabelecidos.

Saiba, aqui, o que é um laxante.

Estes laxantes para alívio rápido da “crise” de intestino preso podem ser sob a forma de comprimidos, saquetas, supositórios ou mesmo clisteres. O doente deve tomar este tipo de medicamentos sempre de acordo com a receita médica.

No caso da presença de sinais ou sintomas de alarme, como por exemplo, o sangramento rectal, perda de peso inexplicada ou cansaço persistente, a procura de um médico torna-se imperiosa. Nestes casos, existe a possibilidade de coexistir uma doença do intestino, que pode ser mesmo grave, como o cancro do colon e reto.

Tratamento da obstipação crónica

No caso das situações mais crónicas, nomeadamente sempre que os sintomas de obstipação persistam por mais de três semanas deverá consultar o seu médico.

O tratamento da obstipação crónica deve ser orientado pelo médico gastrenterologista (especialista em doenças do aparelho digestivo). Este, em primeiro lugar, decidirá se há lugar para a realização de determinados exames médicos, como por exemplo, a colonoscopia, para excluir doenças do intestino.

De uma forma geral, a obstipação tem cura, sendo o tratamento habitualmente, eficaz, embora em alguns casos possa levar vários meses ou anos até que um padrão intestinal regular seja restabelecido.

O doente nunca se deve automedicar, ou seja, tomar qualquer tipo de medicação de venda em farmácia ou outros “remédios caseiros”, ou tentar aplicar qualquer tipo de soluções sem prescrição do seu médico assistente.

Uso de Laxantes

Os laxantes são um tipo de medicamento que ajuda a passagem das fezes. Existem vários tipos, cada um com um efeito diferente sobre o sistema digestivo.

Se for necessária a utilização de um laxante, os primeiros a serem tentados deverão ser aqueles que aumentam o volume das fezes.

Idealmente, o uso destes medicamentos deve ser tão curto quanto possível, no entanto, se a obstipação for causada por uma condição médica crónica subjacente ou uma medicação que esteja a ser efetuada, a necessidade do seu uso poderá prolongar-se no tempo, possivelmente durante muitos meses ou até anos.

Saiba, aqui, tudo sobre laxantes.

Cirurgia e outros tratamentos

Em algumas situações, um programa «bio feedback», ou seja, uma espécie de fisioterapia para treino muscular, poderá ajudar a recuperar o normal funcionamento dos músculos pélvicos e esfíncteres anais, ajudando a recuperar a regularidade do trânsito intestinal.

Em relação à cirurgia, esta só deverá ser proposta em casos muito selecionados. O seu médico Gastrenterologista está habilitado para discutir todas estas alternativas, de modo a identificar qual a melhor solução para o seu caso concreto.

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