Ansiedade infantil

Ansiedade infantil

O que é a ansiedade infantil?

A ansiedade é uma reação a situações potencialmente perigosas, que envolve respostas a diferentes níveis: comportamental, somático, cognitivo e emocional. Apesar de se sobrepor ao medo, é importante compreender a ansiedade visto ser caracterizada por esta complexidade de respostas face à antecipação de uma ameaça, enquanto que o medo constitui uma emoção sentida quando se sente perigo real.

A ansiedade está presente desde a infância, e detém extrema importância pois alerta-nos para uma situação de perigo iminente, proporcionando a análise do que está a ocorrer, e viabilizando uma resposta protetora da ameaça. Constitui, portanto, um sistema de defesa, que não só é sensível ao desenvolvimento das crianças e adolescentes, como também se relaciona com questões evolutivas (de sobrevivência), mesmo que estas já não se enquadrem no contexto atual do jovem. Por exemplo, é frequente crianças que vivem em cidades terem medo de animais que apenas podem encontrar em locais nos quais eles não representam uma ameaça à sua integridade física, como os jardins zoológicos. Tal acontece, pois durante a evolução da espécie humana, estes animais encontravam-se dispersos por diferentes territórios e constituíam, de diferentes formas, uma ameaça para a sobrevivência dos humanos.

Assim, existem diversas situações que provocam ansiedade, em momentos específicos da vida dos jovens. Em algumas destas situações, os medos e ansiedades são funcionais, por exemplo, o medo das alturas é adaptativo quando a criança começa a desenvolver a capacidade de locomoção (gatinhar e, posteriormente, andar), devido à possibilidade de quedas perigosas que comprometam a sua integridade física. Desta forma, a ansiedade alerta a criança para se envolver em comportamentos adaptativos de modo a evitar consequências negativas (neste caso, pode impeli-la a afastar-se de um lanço de escadas). Contudo, noutras situações, a ansiedade e medo podem ser vistos como irracionais considerando os padrões atuais, apesar de serem comuns naquele momento do desenvolvimento, devido a questões evolutivas. Por exemplo, crianças de 3 e 4 anos que têm medo do escuro pois, para os nossos antepassados, estava relacionado com a possibilidade de ameaças que, por não serem facilmente identificáveis, eram mais difíceis de combater, o que colocaria em risco a sua sobrevivência.

Deste modo, quando a criança é pequena, as questões que a deixam ansiosa estão mais relacionadas com o imaginário. À medida que a criança cresce e se desenvolve, estes medos começam a ser mais específicos e realistas, referindo-se a questões do quotidiano. Na adolescência, fase na qual ocorrem muitas mudanças, subsistem exigências em diversos domínios e, por isso, existe uma maior probabilidade de apreensão, ansiedade e receios. Os jovens tendem a preocupar-se com o desempenho escolar, a aceitação social dos seus pares e, no final desta etapa, com o seu futuro.

Os medos e ansiedades têm, portanto, um propósito relacionado com as tarefas ou competências a serem adotadas numa determinada fase do desenvolvimento, por exemplo, uma competência a adquirir entre o primeiro e segundo ano de vida é a locomoção. Quando deixam de ser funcionais, estes medos e ansiedades tendem a diminuir ou desaparecer.

Quando é que a ansiedade infantil deixa de ser normativa?

A ansiedade deixa de ser normativa, de estar associada à norma ou ser natural, se interfere acentuadamente (ou seja, se perturba, daí se falar em perturbações de ansiedade), com o funcionamento da criança ou adolescente, em diversas áreas, impedindo que desempenhe as suas atividades do quotidiano. Esta interferência deve ser constatada ao longo de, aproximadamente, seis meses. Contudo, este critério pode variar conforme o tipo de ansiedade e a idade do jovem, podendo representar um menor espaço de tempo para crianças mais novas. Tal acontece quando existem, simultaneamente, um conjunto de fatores que conduzem a um exagero desmensurado do perigo, ou a uma perceção do perigo quando o mesmo não existe.

Como foi referido anteriormente, os medos e ansiedade, quando deixam de ser funcionais, têm propensão a desaparecer. Contudo, existem situações nas quais tendem a persistir ao longo do tempo e intensificar-se. Tal pode dever-se a diferentes fatores como:

  • pré-disposição genética;
  • competências pessoais e perceção das mesmas: a ameaça é sentida como incontrolável e, por vezes, imprevisível quando a criança ou adolescente considera que a sua capacidade para lidar com o perigo é diminuta, sendo esta percepção do grau de ameaça diferente consoante o jovem;
  • vivências anteriores traumáticas, por exemplo, medos relacionados com cães por ter sido mordido por um, o que pode levar ao desenvolvimento de fobias;
  • aspetos sociais: em determinados contextos existe um maior risco para desenvolver ansiedade.

Igualmente, é importante reforçar a importância de atentar o desenvolvimento do jovem e as competências a adquirir em cada fase do mesmo. Evoco novamente o exemplo de crianças com medo do escuro. Se a criança tiver 3 anos de idade, tal medo (dentro de parâmetros apresentados) será, em princípio, normativo. Tal poderá não ser o caso se esta ansiedade for apresentada por uma criança mais velha. Contudo, é imperativo analisar cada caso separadamente, e considerar os diversos aspetos das perturbações de ansiedade, antes de se concluir que se está perante um caso clínico.

Analogamente, é essencial analisar o período de tempo no qual os sintomas estão presentes. Se estas reações apenas se manifestam ocasionalmente, é possível que constituam preocupações e ansiedades normativas. Mais, é imprescindível atentar os diversos tipos de perturbações, pois cada uma detém um critério temporal específico para que se considere a existência de um quadro clínico de perturbação.

Níveis de ansiedade que implicam a subsistência de uma perturbação, podem ter implicações graves a longo prazo. Nomeadamente, podem levar à diminuição do desempenho académico e da quantidade e qualidade das relações sociais, tal como ao desenvolvimento de depressões e a consumos excessivos.

O diagnóstico de perturbação de ansiedade deve ser realizado por um profissional de saúde, com ênfase na área da saúde mental, credenciado.

Que tipos de perturbação de ansiedade infantil existem? 

Existem diversos tipos de perturbação da ansiedade, que se distinguem consoante a situação que a desencadeia. Seguidamente, serão descritos somente os mais comuns nas crianças e adolescentes.

1. Ansiedade generalizada

É, possivelmente, a perturbação de ansiedade mais comum. Não se refere a nada em particular, podendo estar relacionada com vários domínios: familiar, escolar, relações sociais, futuro e/ou saúde. É ainda exequível que, em qualquer um destes domínios, existam situações que causam ansiedade, sem haver, necessariamente, um acontecimento que a precipite.

Nestes casos, é frequente o jovem estar preocupado, inquieto e fatigado. Pode ainda sentir-se inadequado, ter dificuldade em concentrar-se e/ou dormir, tal como em tomar decisões. Detém, ainda, a perceção que não consegue controlar as diferentes situações que incitam a ansiedade, nem a sua preocupação. Estes sentimentos e pensamentos são, geralmente, acompanhados por um conjunto de sinais fisiológicos como a aceleração do ritmo cardíaco, respiração irregular e/ou sudação excessiva.

A preocupação e ansiedade excessivas devem ocorrer na maioria dos dias, ao longo de seis meses, para que seja considerado um quadro de perturbação.

2. Perturbação de pânico

É um tipo de ansiedade generalizada que, quando se manifesta, é particularmente intensa. Caracteriza-se por episódios súbitos, que parecem surgir do nada pois não se relacionam com situações específicas (contrariamente às fobias). Comporta sintomas físicos cuja origem é incompreensível para os jovens, nomeadamente, respiração acelerada, sensação de sufoco, tonturas, suores, tremores, palpitações cardíacas (coração acelerado) e dores no peito. Estes sintomas são acompanhados por sensações de grande apreensão e de desgraça eminente, bem como sentimentos de terror, medo de perder o controlo, de estar a perder a sua racionalidade ou de estar prestes a morrer. Habitualmente, têm a duração de uns minutos.

As crianças e adolescentes podem desenvolver um medo intenso de ter ataques de pânico, particularmente em locais públicos, e das suas consequências. Logo, procedem a mudanças no seu comportamento de modo a procurarem evitar novos ataques, e tendem a querer ficar em locais que consideram mais “seguros”, isto é, nos quais existe menor probabilidade de experienciarem pânico intenso.

É essencial que estes sintomas estejam presentes ao longo de, pelo menos, um mês para se considerar um quadro de perturbação.

3. Ansiedade de separação

Caracteriza-se pela preocupação persistente da possibilidade de acontecer algo grave (ferimentos, doenças, desastres ou morte) a figuras significativas, nomeadamente os pais. Inversamente, a criança ou adolescente também pode preocupar-se com a eventualidade de algo acontecer a si mesma, nomeadamente, perder-se, ser raptada, ficar doente, na ausência de figuras paternais (ou às quais estabeleceu um vínculo). Tal, traduz-se na recusa em afastar-se dessas pessoas.

Quando a separação ocorre ou é antecipada, o jovem pode apresentar queixas somáticas (dores de cabeça ou de barriga, vómitos) ou resistência, por exemplo, demonstrar relutância persistente em ir para a escola ou outros locais por medo da separação. Pode, ainda, indicar preocupação por estar sozinho em casa ou noutros lugares nos quais não estejam figuras significativas. Igualmente, é possível que as crianças tenham pesadelos que envolvem o tema de perda ou separação.

Para se ponderar um quadro de perturbação, é essencial que os sintomas estejam presentes ao longo de, pelo menos, quatro semanas.

4. Fobias

Caracterizam-se por medo intenso e irracional. É possível que os jovens compreendam que os seus medos são irracionais. As fobias podem ter como alvo vários objetos, ou situações.

Fobia Social

Ocorre quando os jovens têm medo de serem envergonhados ou humilhados em frente a outras pessoas, e, consequentemente, que sejam avaliados negativamente por elas. Assim, evitam situações públicas nas quais possam ser alvo de escrutínio.

Deste modo, é provável que façam o possível para não falar em público ou subir a um palco pois antecipam sentirem-se mal, e não aceitem convites para festas, com medo de se engasgarem ou não conseguirem falar com os outros. As crianças pequenas podem expressar este tipo de ansiedade através de choro, de birras ou da ausência de comunicação verbal em situações sociais. Nessas ocasiões, é possível que também se encolham sobre si, se apeguem a figuras significativas ou fiquem imóveis.

É necessária a presença dos sintomas durante, pelo menos, seis meses para se considerar um quadro de perturbação.

Fobias especificas

As fobias específicas estão relacionadas com objetos ou situações particulares. Nestes casos, o medo é irracional pois ou não existe perigo, ou o mesmo é exagerado desmesuradamente.

Os medos associados a estas ocorrências podem resultar de eventos traumáticos, ou aversivos, embora também aconteçam em jovens nos quais tais incidentes não se verifiquem. Provocam reações muito intensas (sensação de pânico) e, em crianças mais velhas e adolescentes, conduzem a comportamentos de fuga ou de evitamento, face a situações ansiogénicas, ou à antecipação das mesmas. Os bebés ou crianças mais pequenas podem expressar-se através de choro, birras, imobilidade ou apego a figuras significativas.

Alguns exemplos de fobias específicas incluem: claustrofobia (medo de espaços fechados); acrofobia (medo de alturas); e oclofobia (medo de multidões).

De modo a ser ponderado um quadro de perturbação, os sintomas precisam de estar presentes durante, pelo menos, seis meses.

Sinais e sintomas da ansiedade infantil

Existem diversos sintomas que, devido à sua intensidade e extensão temporal, assim como o facto de não poderem ser explicados por nenhuma outra condição, indicam a presença de um quadro de ansiedade. Alguns são específicos de cada perturbação, e estão descritos nas respetivas subsecções. Outros, seguidamente apresentados, são transversais às diferentes perturbações deste tipo. É importante sublinhar que estas respostas também ocorrem em casos de ansiedade normativa, e apenas representam um quadro de perturbação quando o seu impacto é tão intenso, que interfere com o funcionamento adequado do jovem no seu quotidiano.

A ansiedade envolve várias dimensões: a fisiológica, cognitiva, emocional e comportamental. Como tal, existem sintomas relativos a cada uma dessas dimensões.

Alguns dos sintomas mais comuns nos quadros de ansiedade são fisiológicos. Deste modo, é habitual que as crianças e adolescentes sintam:

  • Aceleração do batimento cardíaco;
  • Tensão nos músculos;
  • Dores abdominais (dor de barriga);
  • Tremores;
  • Sudação (excesso de suor, ex. nas mãos);
  • Alterações gastrointestinais;
  • Tonturas.

A nível cognitivo, destaco que os jovens têm a perceção que, em caso de desastre, não saberiam lidar com a situação. Tal, traduz-se numa preocupação excessiva e difícil de controlar, e pensamentos persistentes, relativos a situações que sentem como potencialmente desastrosas. Assim, dedicam muita atenção aos estímulos do meio, que podem ser considerados ameaçadores. Este estado de vigilância é elevado e constante, o que pode conduzir à interpretação errónea de estímulos neutros como representantes de ameaça ou perigo.

Relativamente à dimensão emocional, é importante considerar que as crianças e adolescentes sentem, frequentemente, medo, angústia, irritação e apreensão. Tal deve-se não só à antecipação de eventuais desastres, como também à sensação que não têm as competências necessárias para lidar com os mesmos.

Dependendo da perceção da ameaça, da situação, e das características dos jovens, face à ansiedade, estes podem ter diferentes comportamentos. É possível que fujam perante a perceção de ameaça, evitem um acontecimento que considerem perigoso, ou ainda que fiquem imobilizados (por exemplo, um jovem que tem de falar em público e, quando sobe ao palco, “congela”, não conseguindo falar nem mexer-se). Face ao mesmo tipo de situações, as crianças e adolescentes podem ainda manifestar comportamentos como: chuchar no dedo, chorar, roer as unhas ou desenvolver tiques.

Tratamento da ansiedade infantil

Como foi referido anteriormente, a ansiedade (se não tiver um considerável impacto negativo na vida das pessoas), é muito importante pois avisa-nos para perigo iminente, ajuda-nos a analisar a situação na qual nos encontramos e a proceder da forma mais adequada. Assim, o acompanhamento de pessoas com perturbações deste tipo, não envolve uma cura. A ansiedade não é eliminada completamente! Ao invés, o objetivo do acompanhamento psicológico é ajudar as crianças e adolescentes a desenvolverem ferramentas para lidar com a ansiedade, e a diminuir o número de situações nas quais a sentem.

Deste modo, as intervenções terapêuticas podem visar:

  1. Psicoeducação relativamente ao que é a ansiedade e os mecanismos de manutenção da mesma;
  2. Desenvolvimento de competências pessoais e sociais;
  3. Estratégias de gestão da ansiedade;
  4. Técnicas da abordagem cognitiva-comportamental.

O acompanhamento psicológico poderá ser complementado através de medicação (medicamentos ansiolíticos), receitada por um profissional de saúde, preferencialmente da área da saúde mental credenciado (Psiquiatra).

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