Alterações na doença de Alzheimer

Estrategias no alzheimer

Funcionamento cognitivo na doença de Alzheimer

A doença de Alzheimer é o tipo mais comum de demência e caracteriza-se por ser uma doença neurodegenerativa marcada por um declínio progressivo do funcionamento cognitivo (como confusão, desorientação temporal e espacial, défices de raciocínio e de pensamento, entre outros), em que se destaca particularmente o prejuízo da memória. 

Embora as manifestações clínicas da Doença de Alzheimer se reportem ao funcionamento cognitivo, 50 a 90% dos pacientes com doença de Alzheimer, experienciam um ou mais sintomas comportamentais ou de alteração de humor ao longo do curso da demência, como depressão, apatia, deambulação, agressividade/ agitação, desinibição. Estes sintomas podem ser identificados através da conversação com o doente de Alzheimer e/ou através da observação do seu comportamento.

Vejamos, de seguida, as principais alterações de humor e de comportamento em indivíduos com Doença de Alzheimer e quais as estratégias que podemos utilizar face a cada tipo de alterações.

1. Depressão

Em estádios iniciais da doença é comum observarem-se sintomas depressivos, os quais, não raras vezes, podem mascarar a deteção da Doença de Alzheimer. Ao dar-se conta das perdas de memória que vão surgindo e da consequente perda de autonomia e independência, o doente de Alzheimer acaba por desenvolver, paralelamente, depressão.

A que sinais devo estar atento?

  • Ser incapaz de sentir prazer ou divertir-se com alguma coisa;
  • Estar sempre triste ou excessivamente aborrecido;
  • Evitar atividades do quotidiano e contacto com pessoas;
  • Evidenciar alterações fisiológicas injustificadas, como perda de energia, problemas de sono, diminuição de apetite.

O que fazer?

  • Perceber genuinamente o que o doente está a sentir, procurando identificar o que o está a frustrar e o que pode agravar a depressão;
  • Incentivar a interação social em pequenos grupos, preservando a tranquilidade e evitando situações que possam gerar confusão no doente;
  • Procurar aconselhamento médico e psicológico.

2. Apatia

A apatia é um dos sintomas de alteração de humor mais frequentes da doença de Alzheimer. Pode confundir-se com a depressão; contudo, na depressão observa-se tristeza, choro, profundo aborrecimento, enquanto que a apatia é marcada pela indiferença do doente perante o meio envolvente. Supõe-se que a apatia funcione como uma estratégia de resposta do doente à demência para se adaptar a um mundo que passa a ser tão complexo e confuso para si, sendo mais “cómodo” ignorá-lo.

A que sinais devo estar atento?

  • Falta de interesse em atividades habituais ou passatempos que a pessoa gostava de realizar;
  • Perda de interesse em interações sociais, inclusivamente com amigos ou familiares;
  • Perda de laços emocionais, incluindo redução da manifestação de afeto e intimidade.

O que fazer?

  • Tentar manter o doente envolvido em atividades que anteriormente apreciava;
  • Simplificar e organizar o que se pede ao paciente que execute;
  • Ser cuidadoso nestas estratégias para que não se converta a apatia em agitação.

3. Deambulação

Deambulação é um sintoma comum na Doença de Alzheimer e manifesta-se quando o doente se sente confuso e desorientado ou se perde. Trata-se de um sintoma com alguma severidade na medida em que pode colocar a pessoa em perigo, no caso de deambular na rua e se perder. Na base da deambulação poderá estar a incapacidade de o doente expressar inquietação, tédio ou necessidade de libertar energia.

A que sinais devo estar atento?

  • A pessoa anda intermitentemente sem motivo aparente;
  • Observa-se maior agitação do que habitualmente;
  • Acentuação de desorientação espacial - perante as perdas de memória, o doente pode sair para fazer uma tarefa habitual e perder-se no caminho, deambulando. Ao dar-se conta que está perdido e se encontra a deambular, o doente de Alzheimer fica muito assustado, percecionando a situação como uma ameaça e fazendo disparar os níveis de ansiedade.
  • Mudança de casa ou de ambiente que o doente está inserido (ex.: começar a frequentar o Centro de Dia);

O que fazer?

  • Aumentar vigilância em caso de a pessoa se ter perdido ou de estar num novo espaço; alguns doentes de Alzheimer deambulam durante a noite (o que pode ser particularmente perigoso); neste caso, é importante perceber se existem motivos para a pessoa se sentir desconfortável durante a noite (ex. incontinência pode gerar desconforto);
  • No caso de a pessoa deambular por se sentir perdida, poderá ajudar ter consigo uma pulseira identificadora ou um bilhete com instruções simples que a ajudem a reorientar e tranquilizar;
  • Em caso de mudança de casa, será importante sinalizar os novos espaços de forma a facilitar a orientação do doente;
  • Realizar exercício físico e atividades diárias rotinadas poderá ajudar a libertar energia acumulada e diminuir o impulso para a deambulação;

4. Sundowning 

O sundowning trata-se de um fenómeno que diz respeito ao comportamento agitado ao anoitecer e parece estar relacionado com a falta de estimulação sensorial, depois de escurecer. À medida que a demência progride e que a pessoa apresenta uma menor compreensão do que está a acontecer à sua volta, pode tornar-se mais inquieta na tentativa de restaurar a sensação de familiaridade ou segurança, a qual é particularmente percecionada como posta em causa com o cair da noite.

A que sinais devo estar atento?

  • A pessoa mostra-se agitada e inquieta;
  • Manifesta maior ansiedade e preocupação quando começa a anoitecer;
  • Começa a deambular e demonstrar confusão, sendo frequento fazer perguntas repetitivas como “onde estou?”, “com vou para casa?”, perguntar por alguém significativo.

O que fazer?

  • Ao início da noite, poderá ser útil a pessoa fazer algumas atividades rotineiras que lhe sejam familiares (que tenha aprendido numa fase anterior da sua vida), como por exemplo, correr as persianas, ajudar na preparação do jantar ou pôr a mesa;
  • Libertar alguma energia pode ajudar também: dever-se-á deixar a pessoa passear nos sítios onde esteja em segurança ou acompanhá-la numa caminhada;
  • Algumas pessoas experienciam sensações tranquilizantes com um animal de peluche, um animal de estimação, ouvir músicas familiares ou executar uma tarefa lúdica;
  • Avaliar, junto do profissional de saúde, a necessidade ou ajuste de medicação.

5. Comportamento agressivo 

O comportamento agressivo pode manifestar-se através de violência verbal, ameaças verbais, destruição do meio ou violência física contra outra pessoa.

Não existe uma só base para a sua causa: cada pessoa com demência reage às circunstâncias de um modo muito próprio. Por vezes, o comportamento pode estar relacionado com as alterações degenerativas que a Doença de Alzheimer provoca no cérebro. Noutros casos, podem existir acontecimentos ou fatores ambientais que desencadeiam desconforto na pessoa. É importante recordar que os comportamentos desafiantes que um doente de Alzheimer vai exibindo não surgem de forma consciente e intencional, mas sim como forma de expressar algum desconforto ou necessidade.

A que sinais devo estar atento?

  • Tentar compreender o que está a desencadear esse tipo de comportamento, para que se encontrem formas de contornar ou evitar que ele surja novamente;
  • Na sua causa podem estar fatores diversos: questões de saúde, tais como fadiga, perturbações do sono, efeitos secundários da terapêutica medicamentosa, perturbações sensoriais e alucinações;
  • Por outro lado, podem ter origem em causas de ordem emocional. A agressão pode surgir como uma forma de a pessoa se defender em momentos em que, de algum modo, sente a sua integridade ameaçada (por exemplo, no momento da higiene, a pessoa pode não perceber que é dependente nessa tarefa, reagindo agressivamente ao considerar que a sua privacidade está a ser violada);
  • Fornecer instruções demasiado complexas e incompreensíveis para a pessoa podem causar angústia dado o confronto com as suas incapacidades.

O que fazer?

  • Manter a calma e falar com um tom de voz tranquilizador e, se possível, identificar o sentimento que está a motivar a agressão e explorá-lo com o doente;
  • Fazer uma sugestão simples ou direcionar a atenção da pessoa para uma tarefa que permita distrair o doente;
  • No caso de se sentir inseguro, deverá colocar-se fora do alcance da pessoa; tentar conter o doente só agravará a situação.

6. Comportamento ansioso 

Como já referido, o doente de Alzheimer pode experimentar determinados sentimentos e não ter capacidade para perceber o que os motiva ou como expressá-los. Ansiedade, inquietação, agitação psicomotora (excesso de atividade motora que traduzem sintomas psicológicos) ou aborrecimento são algumas das manifestações do comportamento ansioso. Na sua causa podem estar fatores diversos, pelo que devemos estar alerta relativamente ao que está a acontecer com o doente.

A que sinais devo estar atento?

  • Medo excessivo ou pânico sem motivo aparente, assim como preocupação exagerada com questões do futuro;
  • O doente pode ter necessidade de seguir o seu cuidador por toda a casa e tentar impedir que o mesmo saia, por se sentir seguro na sua presença;
  • Realizar uma tarefa com complexidade maior às suas capacidades pode levar a sentimentos de fracasso e frustração;
  • Poderá manifestar-se em reação à tensão que sente nos elementos que rodeiam a pessoa com doença de Alzheimer.

O que fazer?

  • Despistar a existência de outros problemas ou efeitos secundários da terapêutica farmacológica através de exame médico;
  • Tranquilizar e apoiar a pessoa, abordando-a de modo calmo e gentil; a postura adotada irá funcionar como um espelho para o doente;
  • Ter o cuidado de dar tarefas ao doente adequadas às suas reais capacidades para que possam ser prazerosas (ex.: dar à pessoa algo para manipular, como uma bola antisstress, um novelo de lã para dobar);
  • Assegurar que a pessoa tem atividade física suficiente.

7. Comportamento desinibido 

Os comportamentos desinibidos constituem ações indelicadas, rudes ou ofensivas que se desajustam das regras socialmente aceites. Podem incluir comportamentos sexuais atrevidos e desadequados (seduzir inapropriadamente alguém, despir-se ou acariciar-se em ambientes impróprios) e são particularmente chocantes para os familiares quando o doente, que anteriormente era reservado e sensível, se comporta de forma desinibida.

Os comportamentos desinibidos podem traduzir sensações de desconforto em alguma zona do corpo que levam a pessoa a despir-se ou a acariciar-se e acontecem devido à incapacidade cognitiva de avaliar o que é ou não aceitável fazer em público.

A que sinais devo estar atento?

  • O doente parece estar a agir impulsivamente e sem pensar;
  • Exibe comportamentos impulsivos desadequados e comentários obscenos;
  • Age de forma desajustada com as convenções socias – toque abusivo, comentários desadequados.

O que fazer?

  • Reagir com paciência e gentiliza. Mesmo que os comportamentos sejam muito embaraçosos, é importante recordar que o doente não conserva intenção nem consciência da desadequação dos seus comportamentos;
  • Deverá manter contacto físico de forma a confortar a pessoa. O comportamento desinibido poderá estar a ser motivado por ansiedade, pelo que uma comunicação afetuosa irá ajudar a diminuir os níveis de ansiedade do doente;
  • Se o doente exibir comportamentos sexuais inapropriados, poderá tentar distraí-lo reorientando a sua atenção para outra atividade; adaptar o vestuário da pessoa poderá ser uma forma de evitar que esta exponha o seu corpo.

Os sintomas de alteração de humor e de comportamento associados à doença de Alzheimer são, normalmente, mais difíceis de manejar comparativamente com os sintomas cognitivo, por serem altamente incapacitantes, encurtarem a vida do doente e por resultarem na ambiguidade de o doente estar presente fisicamente, mas já não se encontrar ali no que respeita à esfera emocional, pelo que se torna fundamental dotar o cuidador de informação e estratégias para uma adequada abordagem.

Saiba, aqui, tudo sobre estratégias na doença de Alzheimer.

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