Envelhecimento e défice cognitivo

Défice cognitivo na terceira idade

O Processo de envelhecimento e a velhice

O tema do envelhecimento e da velhice tem vindo a ganhar relevância social e tem despertado cada vez mais o interesse de profissionais de diferentes áreas de investigação científica. Devido ao aumento da esperança média de vida e à diminuição da natalidade, progressivamente a população mundial tem vindo a envelhecer. A Organização Mundial de Saúde (OMS), estima que em 2050, existirão aproximadamente, 1,2 bilhão de pessoas com mais de sessenta anos em todo o mundo, sendo a faixa etária com maior crescimento.

Em Portugal, estima-se que a população idosa em 2060, represente mais de 32% do total da população portuguesa (Instituto Nacional de Estatística, 2009).

O envelhecimento pode definir-se como um processo natural que ocorre de modo progressivo ao longo da vida e acontece de forma diferente de indivíduo para indivíduo. Depende de variáveis sociais, psicológicas e fisiológicas, tais como: o género, as condições genéticas, as diferenças culturais, o estatuto socio-económico e nível de atividade.

O processo de envelhecimento implica deterioração progressiva, estrutural e funcional, de todos os tecidos e órgãos. O que conduz à vulnerabilidade do organismo, levando a doenças agudas ou crónicas e a alterações fisiológicas (que se manifestam em por exemplo, começar a ouvir mal ou ficar com o cabelo todo branco).

Já o termo velhice é, geralmente, utilizado para referir uma fase da vida em que este processo se acentua, tanto a nível biológico, como social, ou seja, ao mesmo tempo que acontece a reforma ou a viuvez, vão surgindo também perdas a nível funcional. Estas perdas refletem-se no indivíduo ao nível do seu comportamento, capacidades intelectuais, atividade física e interações sociais.

Declínio cognitivo e défice cognitivo no envelhecimento

As alterações psicológicas decorrentes da velhice e do envelhecimento, manifestam-se a nível cognitivo e emocional.

A cognição engloba vários domínios do funcionamento cerebral que se traduzem no que chamamos de funções cognitivas. Estas incluem a perceção; orientação; atenção; linguagem; memória e funções executivas (tais como a abstração); resolução de problemas e raciocínio lógico. Permite ao indivíduo apreender o que se passa à sua volta. No processo de envelhecimento, estas capacidades cognitivas sofrem uma alteração contínua. Estas alterações podem representar um declínio cognitivo fisiológico, ou seja, associado ao processo normal de envelhecimento ou representar um declínio cognitivo patológico, o chamado défice cognitivo.

Este défice cognitivo pode surgir por doenças neurodegenerativas (como a demência), traumas (como Traumatismo Crânio Encefálico (TCE) - muito comum em sequência de quedas) ou acidentes (como os Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) ou Acidentes Isquémicos Transitórios (AIT)). Pode ainda estar associado a quadros depressivos.

O envelhecimento e a demência

Sabe-se que a idade é o principal fator de risco para o surgimento de patologias responsáveis por défice cognitivo. O envelhecimento populacional tem levado a um aumento das taxas de incidência e prevalência de doenças neurodegenerativas crónicas, especialmente de demência.

A demência é definida como sendo uma doença neurodegenerativa progressiva e que se caracteriza por deterioração cognitiva (memória e pensamento), alterações comportamentais e dificuldades na realização de atividades de vida diária.

De recordar que, embora maioritariamente, as pessoas com demência sejam pessoas mais velhas, esta doença não faz parte do processo de envelhecimento normal.

Em 2010 estimou-se que em 2050, 115,4 milhões de pessoas a nível mundial, vivam com demência. Ainda a nível mundial, previa-se um custo com a demência de cerca de 604 mil milhões de dólares, dos quais 70% seriam na Europa Ocidental e América do Norte.

Existem vários tipos de demência, sendo a mais comum, a Doença de Alzheimer. Num estudo realizado em 2005, calculou-se que a Doença de Alzheimer afetasse cerca de 24 a 25 milhões de pessoas em todo o mundo, tornando-se numa das maiores causas de incapacidade, dependência e morbilidade nas pessoas mais velhas. Um relatório da OCDE de 2017 coloca Portugal como o 4º país com mais casos por cada mil habitantes.

Vários estudos têm demonstrado que a partir dos 60 anos, a probabilidade de sofrer de Doença de Alzheimer duplica a cada cinco anos.

Défice cognitivo ligeiro

O Défice Cognitivo Ligeiro (DCL) é considerado como um estado de transição entre o envelhecimento cognitivo normal e a demência leve, estando associado, portanto, ao risco de desenvolver demência.
Torna-se assim imperativa, a deteção precoce do défice cognitivo e da demência, permitindo a intervenção terapêutica em fases iniciais.

Em Portugal, o Plano Nacional de Saúde 2004/2010, priorizava a deteção e seguimento de casos de Défice Cognitivo Ligeiro, uma vez que o Ministério da Saúde sinalizou a demência como a principal causa de gastos na saúde acima dos 65 anos. A estes gastos, acresce o impacto físico e psicológico nas pessoas com demência e nos seus cuidadores e familiares.

Como detectar precocemente o défice cognitivo e a demência?

O método mais eficaz para a identificação precoce de défice cognitivo nos idosos é a realização de rastreio cognitivo breve, com testes adequados. Este rastreio pode ser realizado pelo médico de família que, no caso de identificar a presença de um défice cognitivo, deverá encaminhar o doente para o médico especialista (neurologista/psiquiatra) que, por sua vez, realizará exames de neuroimagem.

Os testes de rastreio cognitivo são testes de administração fácil e rápida, permitindo uma caracterização superficial do funcionamento cognitivo e a distinção de situações “normais” de “patológicas”.

No caso de doenças neurodegenerativas, como demências, os exames de neuroimagem, bem como os rastreios cognitivos breves não são, geralmente, suficientes para ultrapassar as dificuldades de diagnóstico inerentes a estas patologias. Como tal, é recomendada a realização de uma avaliação neuropsicológica mais extensa.

Esta avaliação permite identificar e quantificar o défice cognitivo e traçar um perfil neuropsicológico, avaliando o funcionamento cognitivo nos seus vários domínios, como a atenção, a memória ou o comportamento. Deste modo, é possível, uma avaliação completa do funcionamento de uma função cognitiva na qual, por exemplo, tenha sido identificado um défice no rastreio cognitivo.

Esta avaliação detalhada deve ser individualizada e compreensiva, requerendo habitualmente, algumas horas e implicando a utilização de várias provas e testes específicos, cuja correta seleção constitui condição essencial para a validade e utilidade da avaliação.

Estes testes devem ajustar-se às queixas da pessoa, ao pedido da avaliação, à situação clínica e hipóteses diagnósticas.

A saúde mental do idoso torna-se, assim, cada vez mais premente, devendo os especialistas oferecer respostas mais eficientes, diferenciadas e de proximidade.

Clínica de Psicologia