Adições

Dependências ou vícios

O que é a adição?

A adição é uma perturbação crónica que conduz a pessoa a repetir compulsivamente e de forma involuntária um determinado comportamento recompensante que pode causar danos. E o que significa isto?

Em primeiro lugar, significa que a adição é uma perturbação que acompanha a pessoa durante a vida. Atenção, isto não significa que não tenha tratamento e que não se possa viver feliz com esta perturbação! Significa apenas que é uma vulnerabilidade com que a pessoa terá de viver, que exige adaptação do estilo de vida, motivação para ser ultrapassada e, acima de tudo, apoio. Este apoio pode ser profissional, social ou comunitário. Mas é sempre necessário para que a recuperação seja possível e se possa ter uma vida saudável e equilibrada.

Em segundo lugar, significa que, à semelhança de muitas outras perturbações mentais, a adição não é voluntária e não depende da vontade da pessoa. Pelo contrário, é uma condição que causa muito sofrimento a quem vive com ela e que muitas vezes, apesar de grandes esforços e muitas consequências negativas, o adito não é capaz de quebrar o seu padrão de comportamento disfuncional.

Na adição a motivação está afetada: há uma motivação extremamente forte para repetir os comportamentos impulsivos, que dão prazer instantâneo e se tornam destrutivos. Por outro lado, a motivação para o envolvimento em atividades saudáveis, por vezes frustrantes no momento, mas gratificantes a longo prazo (como estudar ou trabalhar), está diminuída. E isto ocorre, apesar das consequências negativas e do sofrimento intenso causados pela adição, daí estes comportamentos serem considerados compulsivos.

Por fim, a adição envolve comportamentos. E porque é que isto é importante? Porque os comportamentos estão ligados com as cognições e emoções: com o que pensamos e sentimos. Assim, a adição está também relacionada com padrões cognitivos, emocionais e comportamentais que são disfuncionais e que geram sofrimento. Na procura de uma solução para esse sofrimento mental, os “consumos” aparecem como uma resposta rápida e aparentemente fácil

O aspeto mais importante a reter é que a adição é uma doença. Não é uma escolha e não é voluntária. É uma perturbação mental com manifestações muito variadas e que vai além da mera dependência física de uma substância.

Que tipo de adições existem?

Uma vez que a adição é uma perturbação complexa e na qual estão incluídos comportamentos disfuncionais, isso também significa que não se limita ao uso de drogas ou álcool. Aliás, assistimos nos dias de hoje ao aparecimento de novas “drogas”, como o jogo online ou as redes sociais (Facebbok, Instagram, etc). Assim, podemos distinguir dois grandes tipos de adição: a substâncias (1) e a comportamentos (2).

1. Adição a substâncias

Quer sejam lícitas, como o álcool ou medicamentos, ou ilícitas, como a cocaína e a heroína. Este tipo de adição é aquele que mais facilmente identificamos, por haver um comportamento de consumo que tendemos a reconhecer como nocivo.

2. Adição a comportamentos

Um exemplo deste tipo é a adição a jogos de azar. No entanto, muitos outros comportamentos podem cair nesta categoria, como, por exemplo, o jogo online, a internet, a pornografia, o exercício físico ou até mesmo a compras. A adição pode desenvolver-se para qualquer comportamento que se torne compulsivo e destrutivo.

Apesar de estes tipos de adições poderem parecer bastante diferentes, há um fator comum a todos eles. Todos estes tipos de “consumos” procuram uma gratificação imediata e resultam da incapacidade de gerir e lidar com as emoções e/ou pensamentos de uma forma mais construtiva a longo prazo.

Como se desenvolve uma adição?

O percurso da adição apresenta-se em padrões muito diferentes em cada pessoa. Para algumas pessoas começa muito precocemente, na pré-adolescência e adolescência, muitas vezes com consumos excessivos com os amigos, num ambiente social e de diversão. Outras vezes inicia-se com comportamentos aparentemente mais inocentes, como passar demasiado tempo em jogos online, que mais tarde se tornam incontroláveis e compulsivos. Noutros casos a adição só começa a aparecer mais tarde, numa fase de vida mais tardia, em função de acontecimentos de vida stressantes ou traumáticos, como divórcio ou perda de um ente querido, ou de outras perturbações psicológicas, como a depressão.

No entanto, existem alguns mecanismos em comum que estão na base da adição. Mais especificamente, falamos de alterações cerebrais no sistema de recompensa do nosso cérebro (responsável por libertar os neurotransmissores que transmitem a sensação de prazer). Numa pessoa que sofra desta perturbação, este sistema fica alterado como consequência dos consumos de substâncias ou dos comportamentos a que se é adito, uma vez que estes dão uma sensação de prazer imediato. Ao longo do tempo, o cérebro vai continuar a procurar gratificação imediata e a capacidade de tolerância à frustração é cada vez mais diminuta. Esta frustração pode ser originada pelos mais diversos aspetos que gerem pensamentos e/ou emoções negativas, como conflitos ou dificuldades interpessoais, problemas laborais ou até traços de personalidade com os quais a pessoa tem dificuldades em lidar.

Esta alteração no sistema de recompensa tem efeitos importantes:

  • As atividades saudáveis, os hobbies, que geralmente geravam satisfação, deixam de o fazer, o que conduz à repetição do comportamento compulsivo, numa busca de prazer;
  • Desenvolve-se uma tolerância cada vez maior à substância ou comportamento e como tal os consumos e/ou comportamentos aumentam gradualmente;
  • As consequências negativas da adição, tão visíveis para os outros, são minimizadas pelo próprio adito, que, muitas vezes, não se consegue aperceber da real dimensão do problema.

As alterações no sistema de recompensa são mantidas por mecanismos de associação. Todos os estímulos associados aos comportamentos de consumo (por exemplo, locais, pessoas, emoções) funcionam como triggers que conduzem ao craving - vontade incontrolável de consumir ou realizar o comportamento em questão.

Estas associações são extremamente fortes e também explicam por que razão a recaída é tão recorrente para quem sofre de adição: mesmo após períodos de abstinência, elas podem ser reavivadas e conduzir ao início de um novo ciclo.

Este é um ciclo que se mantém a si próprio através de mecanismos de reforço neurobiológicos e psicológicos. Pode pensar-se na adição como um ciclo de comportamentos que pretendem ser um escape a estados psicológicos negativos, numa busca incessante de bem-estar. No entanto, o bem-estar alcançado através destes comportamentos e consumos é sempre fugaz e passageiro, conduzindo a nova insatisfação e nova procura de bem-estar, num loop quase infinito.

Quais são os fatores de risco para o desenvolvimento de uma adição?

Podemos dividir os fatores de risco para o desenvolvimento da adição em três grandes categorias: fatores do agente (a substância ou comportamento) (1), do ambiente (2) e pessoais (3).

1. Fatores do agente

Estes fatores estão relacionados com as características das substâncias ou comportamentos em questão, nomeadamente se o acesso é fácil e a sua capacidade de criar dependência. Assim sendo, quanto mais fácil o acesso e mais poderoso o agente, maior é a probabilidade de dependência.

Em linguagem mais simples, drogas ou comportamentos que operam maiores alterações na química cerebral e nas associações criadas (por exemplo, a heroína ou os jogos de azar) têm maior probabilidade de resultar numa adição, uma vez que criam dependência física e psicológica mais rapidamente.

2. Fatores do ambiente

Estes fatores incluem aspetos sociais e culturais, sendo que em determinados contextos há maior risco para desenvolver uma adição. Especialmente quando se pertence a um grupo de pares no qual o consumo é padrão comum, mas não é feito de modo saudável. Ou seja, quando se pertence a um grupo em que o abuso é habitual e aceite, existe maior risco de desenvolver uma adição.

A forma como a cultura considera e tolera o consumo também é importante: há substâncias ou comportamentos mais facilmente aceites culturalmente do que outros. Por exemplo, mais facilmente é tolerado o consumo excessivo de álcool, mesmo em ocasiões sociais ou familiares, do que o consumo de substâncias ilícitas, como a cocaína.

3. Fatores pessoais

Neste grupo encontram-se uma série de aspetos importantes, nomeadamente a predisposição genética, a existência de outras perturbações psicológicas e a história pessoal.

A adição é uma perturbação na qual a predisposição genética tem um grande peso, tornando as pessoas mais sensíveis e suscetíveis ao desenvolvimento de dependências. Não significa que todas as pessoas com historial familiar de adição também a irão desenvolver, mas sim que estão em maior risco de o fazer caso se exponham a substâncias ou comportamentos com esse potencial.

O risco também é maior quando existem outras perturbações mentais, como a depressão, a ansiedade ou perturbações de personalidade. Isto porque o sofrimento gerado por estas perturbações, por vezes, leva à procura de “soluções fáceis” e que dão a sensação de prazer imediato, conduzindo ao aparecimento do ciclo de vício.

O crescimento em famílias instáveis e problemáticas, nas quais muitas vezes falta espaço para os afetos e carinho, com as respetivas consequências no desenvolvimento da pessoa, também se constitui como fator de risco para a adição, assim como para outros tipos de comportamentos antissociais.

Estes são os principais fatores de risco que tornam uma determinada pessoa mais suscetível para o desenvolvimento da adição, o que não significa que todos terão de estar presentes para que tal aconteça. Nem todos os aditos são provenientes de famílias problemáticas ou de contextos socioculturais em que o abuso é comum. Esta é uma perturbação que qualquer um pode vir a desenvolver durante a vida, tal como as perturbações depressivas ou de ansiedade.

Quais os sinais que nos podem alertar para a presença de uma adição?

Existem alguns sinais que nos permitem identificar quando estamos perante uma adição, quer seja relativa a uma substância ou a um comportamento.

1. Perda ou diminuição do controlo sobre o consumo ou comportamento

Um dos sinais de perda de controlo é o facto de o consumo ou comportamento em questão ser excessivo ou durante mais tempo do que o desejado. Isto acontece porque alguém que sofra de adição não é capaz de controlar o seu comportamento e, por isso, não é capaz de um consumo saudável e equilibrado.

Outro sinal importante é já existirem tentativas de paragem sem sucesso. Por vezes, a pessoa já realizou inúmeros esforços para parar de beber, jogar ou utilizar a internet de forma obsessiva, mas não foi capaz. Este é também um alerta para a falta de controlo sobre o comportamento, mesmo quando já há consciência da existência de um problema.

Outro aspeto importante a ter em consideração é o tempo despendido neste tipo de comportamentos. Quando se tem uma adição, esta torna-se de grande importância na vida da pessoa e, muitas vezes, grande parte do dia é orientado à volta da mesma. É possível que a pessoa adita passe o dia a pensar, de forma obsessiva, em como pode levar a cabo os comportamentos que lhe dão prazer. Por vezes, em casos mais graves, pode acontecer que praticamente todas as atividades diárias girem em volta destes comportamentos ou consumos.

2. Danos sociais

Este sinal de alerta traduz-se no fracasso da pessoa em cumprir as suas responsabilidades. Quando estamos perante um caso desta perturbação, é muito comum que as obrigações familiares, sociais e/ou laborais sejam descuradas em detrimento de levar a cabo a procura de gratificação trazida pelo consumo ou comportamento. Muitas vezes ocorre que, mesmo após consequências graves a um nível social e/ou interpessoal, o comportamento persista.

É também comum que o envolvimento noutras atividades (sociais, familiares ou recreativas) que anteriormente eram fontes de prazer sejam abandonadas ou drasticamente reduzidas. É comum que hobbies sejam abandonados e o tempo passado com famílias e amigos seja reduzido em detrimento destes comportamentos.

3. Persistência do consumo ou comportamento apesar dos riscos

Este sinal de alerta significa que, mesmo na presença de perigos e riscos sérios, o comportamento persiste pela falta de controlo sobre o mesmo. Este sinal é bastante fácil de compreender quando se pensa em casos em que o consumo persiste apesar de estarem presentes problemas de saúde física relacionados com o uso de substâncias. Por exemplo, o caso de um adito ao álcool que continua a consumir bebidas alcoólicas mesmo após ter desenvolvido uma cirrose hepática. Mas também se aplica a outros casos, como por exemplo as perturbações psicológicas que são agravadas pela adição (como a depressão e a ansiedade) ou dificuldades financeiras causadas pela adição a jogos de azar.

Independentemente do tipo de consequência, o que nos indica que estamos perante uma adição é que, apesar dos resultados negativos do comportamento, este se mantém.

4. Sintomas de abstinência/ cravings

A presença de sintomas de abstinência é um sinal de alerta para a presença de adição. No entanto, há substâncias que causam sintomas de abstinência mais fortes do que outras. Por exemplo, os sintomas fisiológicos causados pela abstinência da heroína são mais marcados do que os sintomas fisiológicos da abstinência da Cannabis.

Além disso, nem sempre os sintomas de abstinência estão presentes, acontecendo apenas quando a dependência está ligada ao abuso de substâncias tóxicas. Mas existe outro sinal que nos alerta para a adição, nomeadamente a existência de craving psicológico. Isto significa que, apesar de não existir uma dependência física, há um desejo intenso e incontrolável de realizar o comportamento em questão. Por exemplo, na adição a jogos de azar, em que não há sintomas fisiológicos de abstinência, mas existe um desejo intenso de jogar.

A existência de apenas um destes sinais não significa que se esteja perante uma situação de adição, mas pode alertar-nos para o risco de tal poder vir a acontecer no futuro. No entanto, quando estão presentes vários destes sinais de alerta, pode considerar-se que a pessoa em questão desenvolveu esta perturbação.

Qual o tratamento para a adição?

Como já foi referido, a adição é uma doença crónica. Isto significa que não tem cura, mas é tratável. Pode fazer-se a comparação com alguém que sofra de diabetes: toda a vida terá de conviver com a doença, mas se tomar as precauções necessárias poderá ter uma vida feliz, saudável e equilibrada.

Na adição, o caminho para a recuperação é marcado por avanços e retrocessos, por vezes com recaídas e momentos de desmotivação, mas é possível consegui-lo.

O tratamento tem as suas especificidades de acordo com o tipo de substância ou comportamento em questão, pelo que neste artigo apenas serão abordadas algumas linhas gerais da intervenção.

A desintoxicação é um importante passo no início do processo de tratamento, podendo ser necessário apoio farmacológico para lidar com os sintomas de abstinência ou para realizar uma substituição da substância, que é gradualmente retirada (como no caso da substituição da heroína por metadona). No entanto, não basta a desintoxicação para que um adito se recupere, uma vez que esta só trata da dependência fisiológica.

Assim sendo, é necessário também tratar a dependência psicológica, trabalhando os padrões cognitivos, emocionais e comportamentais complexos que contribuem para a manutenção da adição. Este trabalho pode ser feito de diversas formas, sendo uma delas através de ajuda terapêutica profissional. Esta pode ser pedida nas instituições indicadas para o efeito, podendo fazer-se tratamento em regime de ambulatório ou de internamento.

O trabalho terapêutico para a recuperação deve sempre considerar a individualidade de cada pessoa, em que cada caso é único e diferente. Mas existem alguns aspetos que devem ser desenvolvidos na generalidade das intervenções, nomeadamente:

  • psicoeducação relativamente aos mecanismos de funcionamento da adição;
  • competências socioemocionais;
  • hábitos de vida saudável, substitutos dos hábitos disfuncionais;
  • reconstrução de redes sociais;
  • motivação para a abstinência estável;
  • ferramentas de prevenção da recaída.

Para que a recuperação seja possível é necessário um elevado nível de motivação, uma vez que tratar a adição implica mudanças que não se limitam à abstinência, mas também aos padrões de vida da pessoa. Apesar de ser um processo moroso e exigente, é também bastante recompensante e proporciona alívio do sofrimento intenso provocado pela adição.

Procurar apoio para lidar com a adição é um passo importante em recuperar o controlo sobre a própria vida e não há nada a temer em precisar de ajuda. Pelo contrário, pedir ajuda é um ato de coragem que surge com a consciência de que não se conseguem ultrapassar todas as dificuldades sozinho, mas se sabe que vale a pena continuar a lutar. Pedir ajuda significa dar-se outra oportunidade para se libertar de uma doença difícil de compreender e reaprender a viver de uma forma saudável e feliz.

Clínica de Psicologia