A terapia EMDR é uma abordagem psicoterapêutica usada para dessensibilizar e reprocessar experiências emocionalmente perturbadoras, que podem estar associadas, por sua vez, a alguns quadros psicopatológicos (ansiedade, depressão, POC, PSPT, perturbações psicossomáticas, entre outras). O nome vem de Eye Movement Desensitization and Reprocessing, ou, em português, Dessensibilização e Reprocessamento através do Movimento Ocular. Apesar do nome, o trabalho terapêutico não se limita aos movimentos oculares: pode recorrer também a estímulos auditivos ou táteis, sempre de forma alternada e integrada num protocolo clínico específico.
Em termos simples, a psicoterapia EMDR parte da ideia de que algumas experiências difíceis podem ficar “presas” na memória com a intensidade emocional, corporal e cognitiva original. Quando isso acontece, a pessoa pode continuar a reagir no presente como se o passado ainda estivesse ativo. A terapia EMDR procura ajudar o cérebro a reprocessar essas memórias, reduzindo o desconforto e permitindo uma integração mais adaptativa da experiência.
Ao longo deste artigo, explicamos em linguagem clara o que é a terapia EMDR, como funciona, para que situações pode ser considerada, o que acontece numa sessão, quais as principais precauções e o que esperar do processo.
O que é a terapia EMDR?
A terapia EMDR é um método de dessensibilização e reprocessamento de memórias perturbadoras através de estimulação bilateral do cérebro. Essa estimulação pode ser visual, auditiva ou tátil e é usada dentro de um protocolo estruturado, com objetivos bem definidos em cada fase do tratamento. Esta abordagem pode ser usada de forma isolada ou integrada noutro processo psicoterapêutico.
Na prática, a EMDR trabalha com diferentes componentes da memória traumática ou perturbadora: imagens, pensamentos, emoções, crenças e sensações físicas. O objetivo não é apagar a memória, mas sim reduzir a sua carga emocional e permitir que deixe de desencadear o mesmo nível de sofrimento.
Como funciona a psicoterapia EMDR?
Quando um acontecimento perturbador não é devidamente processado, pode ficar armazenado com as imagens, sons, pensamentos, sentimentos e sensações corporais associados ao momento em que ocorreu. A EMDR ajuda o cérebro a “desatar os nós” dessas memórias difíceis, promovendo o chamado processamento adaptativo da informação.
Durante a terapia, a pessoa foca-se num elemento ligado à experiência perturbadora - por exemplo, a tal imagem, sensação corporal, emoção ou pensamento - enquanto acompanha uma estimulação bilateral alternada. Este processo parece facilitar a dessensibilização da memória e o seu reprocessamento, permitindo uma mudança no significado que a pessoa atribui à experiência. Uma memória antes associada a ideias como “estou em perigo” pode passar a ser vivida de forma mais integrada, como “estou seguro/a agora”.
Um dos aspetos mais importantes da terapia EMDR é que a pessoa mantém controlo sobre o processo e pode parar a qualquer momento. Além disso, não é obrigatório verbalizar todos os detalhes do que surge durante o reprocessamento.
Para que situações pode ser indicada?
Embora seja muitas vezes associada ao tratamento do trauma, a EMDR pode ser integrada no acompanhamento de diferentes dificuldades emocionais e psicológicas sempre que existam memórias, gatilhos, crenças negativas ou respostas corporais que continuam a alimentar o sofrimento. Nos pontos seguintes, explicamos algumas das principais áreas em que esta abordagem pode ser utilizada e de que forma o trabalho terapêutico pode ajudar em cada uma delas.
1. EMDR para traumas e stress pós-traumático
Uma das aplicações mais conhecidas da terapia EMDR é o trabalho com trauma e perturbação de stress pós-traumático. Entre os acontecimentos frequentemente associados a este tipo de sofrimento estão abuso sexual, violência, assaltos, acidentes, guerra, catástrofes naturais, trauma médico, negligência e maus-tratos na infância.
Nestes casos, a EMDR pode ajudar a trabalhar memórias intrusivas, flashbacks, pesadelos, hipervigilância, evitamento, vergonha, culpa, alterações negativas de crenças e dificuldades relacionais. O objetivo passa por dessensibilizar e reprocessar memórias traumáticas, atualizar crenças nucleares e reduzir respostas condicionadas de alarme/hipervigilância. Espera-se, com isso, uma diminuição de intrusões e evitamento, menor reatividade fisiológica e uma maior sensação de segurança e controlo.
2. EMDR para ansiedade, pânico e fobias
A psicoterapia EMDR também pode ser usada em quadros de ansiedade, perturbação de pânico e fobias. Entre os exemplos incluem-se fobias específicas, como medo de voar, conduzir, animais ou sangue/injeções, bem como ansiedade de desempenho, medo de avaliação social e pânico com ou sem agorafobia.
Nestes casos, o trabalho terapêutico pode centrar-se na primeira experiência de medo intenso, no episódio mais marcante, no mais recente e nos gatilhos situacionais, bem como nos sinais físicos associados, como taquicardia ou tonturas. O objetivo terapêutico pode passar por reduzir ataques de pânico, evitamento e hipervigilância, ao mesmo tempo que se reforça a sensação de capacidade para enfrentar situações temidas.
3. EMDR para luto e depressão ligada a perda ou trauma
A EMDR pode também fazer sentido em situações de luto prolongado ou complicado e em quadros depressivos ligados a perda, rutura de vínculo ou trauma. Alguns dos sinais que podem surgir incluem culpa, imagens intrusivas da perda/morte, desesperança, anedonia e ruminação.
Nestas situações, o trabalho terapêutico pode incidir sobre memórias de separação ou perda, momentos-chave ligados à notícia da morte, ao hospital ou ao funeral, bem como crenças centrais como “não mereço” ou “nunca vou recuperar”. O objetivo é aliviar a carga emocional destas memórias, reduzir culpa e ruminação e facilitar um reencontro gradual com a vida quotidiana, os vínculos e os projetos pessoais.
4. EMDR para dor crónica
A terapia EMDR é também referida na gestão da dor crónica, incluindo dor musculoesquelética persistente, fibromialgia, cefaleias ou enxaquecas, dor pélvica crónica e dor pós-trauma ou pós-cirúrgica.
Nestas situações, a intervenção pode dirigir-se a memórias de dor ou trauma médico, catastrofização, medo-evitamento, crenças de incapacidade e hipervigilância interoceptiva. O objetivo pode passar por reduzir o sofrimento associado à dor, diminuir a catastrofização e melhorar a funcionalidade e a qualidade de vida.
5. EMDR para dependências e adições
A psicoterapia EMDR pode ainda integrar o trabalho terapêutico em dependências químicas e adições comportamentais, como álcool, canábis, cocaína, opiáceos, jogo, compras, pornografia ou uso problemático da internet.
O foco pode incluir memórias gatilho, craving, impulsividade, trauma subjacente e dificuldades de regulação emocional, sobretudo quando existem estados de vergonha, solidão ou sofrimento emocional persistente. O objetivo é reduzir urgência, reforçar controlo e apoiar a prevenção de situações de recaída.
6. EMDR para bloqueios de desempenho
A EMDR também pode ser aplicada em contextos de desempenho, como desporto, artes performativas, falar em público, exames, entrevistas, liderança ou outras situações de elevada exigência.
Nestes casos, o trabalho pode incidir sobre memórias de falhas, humilhações, ansiedade de desempenho, perfeccionismo, bloqueios e crenças limitadoras. A intervenção procura promover maior autoeficácia, consistência de performance, recuperação após erro e maior flexibilidade atencional.
A EMDR serve apenas para “grandes traumas”?
Não. A EMDR pode também trabalhar microtraumas e experiências dolorosas do dia a dia, como humilhações, rejeições ou falhas, sempre que estas continuam a alimentar ansiedade, fobias, dificuldades relacionais ou bloqueios de desempenho.
O que acontece numa sessão de terapia EMDR?
A terapia EMDR segue um protocolo-base com oito fases: história clínica, preparação, avaliação, dessensibilização, instalação, verificação corporal, fecho e reavaliação. Importa que ressalvar que estas fases têm durações diferentes, e que, por vezes, uma mesma fase pode acontecer ao longo de várias sessões (e.g. fase 4).
1. História Clínica
Numa primeira fase, são explorados a história da pessoa, os sintomas, os objetivos terapêuticos e as dúvidas sobre o processo. Também é a fase em que se define o tema a trabalhar, que se começa a perceber que memórias, situações ou gatilhos podem estar na origem do sofrimento atual, bem como a projeção do paciente para o futuro (i.e., como gostaria de ser capaz de lidar com estas situações no futuro).
2. Preparação e Recursos
Antes de avançar para o reprocessamento, trabalham-se estratégias de autorregulação, como respiração, grounding e “lugar seguro”. Também pode ser combinado um sinal de pausa, para que a pessoa se sinta segura e com controlo durante a sessão.
3. Avaliação
Nesta etapa, o paciente identifica a memória/situação/disparador que escolhe trabalhar com base na lista obtida na fase 2, bem como as emoções, sensações corporais e crenças associadas (como “não consigo” ou “não sou suficiente”). Também se avalia o nível de perturbação subjetiva e a validade de uma cognição positiva alternativa associadas à mesma.
4. Dessensibilização e reprocessamento
É a fase em que se usa a estimulação bilateral alternada. A pessoa começa por dirigir a atenção para a memória-alvo enquanto a estimulação bilateral acontece, e vai havendo pausas para observar o que vai surgindo internamente, partindo dessa obervação em cada momento de estimulação bilateral. Ao longo do processo, o terapeuta vai conduzindo o processo e reavaliando, sempre que considere necessário, o nível de perturbação subjetiva, até este se aproximar do nível desejado de não-perturbação.
5. Instalação de uma crença positiva
Depois da redução do desconforto, e de chegarmos ao desejado nível de não-perturbação, o terapeuta avalia se a crença positiva ainda se adequa e, após essa avaliação, reforça-se uma cognição mais adaptativa em relação à situação trabalhada, como “posso lidar” ou “estou seguro/a agora”.
6. Verificação corporal
As memórias existem no nosso corpo muito antes de existirem na nossa consciência e, por isso, o corpo também é observado como parte do processo. Se ainda houver tensão, desconforto ou ativação física associada à memória, esta é a parte em que qualquer desconforto residual é trabalhado até deixar de ser sentido.
7. Fecho
Cada sessão termina com técnicas de estabilização e encerramento seguro, quer o processamento tenha ficado concluído nessa sessão, quer precise de continuar noutra.
8. Reavaliação
Quando o reprocessamento de determinada situação/memória/gatilho não fique completo na sessão anterior, na sessão seguinte, revê-se o progresso, explora-se os eventuais gatilhos que possam ter ativado, nesse período, o que foi trabalhado na sessão anterior, reavalia-se o nível de perturbação subjetivo, as crenças (positiva e negativa), e sempre que ainda haja algum nível de perturbação, avança-se de novo para a fase de reprocessamento. Caso não haja nível de perturbação subjetiva, o paciente escolhe outra memória/situação/gatilho, e o processo repete-se até já estarem todas reprocessadas.
É preciso falar detalhadamente sobre o trauma?
Não necessariamente. Na EMDR não é obrigatório contar todos os detalhes da experiência, nem do que vai surgindo ao longo do reprocessamento. O foco incide no que surge no presente quando a pessoa contacta com a memória: imagem, emoção, sensação corporal ou pensamento, e basta que a pessoa mantenha o que surge em mente à medida que é orientada pelo terapeuta, sem precisar de detalhar o que surge.
A pessoa mantém controlo sobre o ritmo do processo e pode interrompê-lo sempre que necessário. Isso ajuda a tornar o trabalho terapêutico mais tolerável e ajustado aos limites de cada um.
Quantas sessões de EMDR são necessárias?
Não existe um número fixo de sessões. A duração do processo depende do caso, do funcionamento individual e sobretudo da complexidade do trauma ou da dificuldade em causa. Há situações simples que podem exigir poucas sessões, enquanto quadros mais complexos, com múltiplos eventos ou comorbilidades, podem precisar de um percurso mais prolongado.
Em algumas situações mais circunscritas, o processamento pode ser relativamente breve. Noutras, o trabalho requer mais tempo e revisão periódica dos objetivos terapêuticos.
Com que frequência se faz terapia EMDR?
O mais habitual é começar com sessões semanais. Em alguns casos, a frequência pode ser quinzenal, sobretudo em fases de preparação ou integração. Em fases de processamento mais intensivo, pode ser considerada uma maior frequência ou sessões mais longas, sempre em função da avaliação clínica.
Quanto tempo dura uma sessão?
Uma sessão de terapia EMDR dura habitualmente cerca de 60 minutos. Em situações específicas, essa duração pode ser ajustada consoante o protocolo e a complexidade do caso.
EMDR online funciona?
Sim. A EMDR online pode ser eficaz e segura quando estão asseguradas determinadas condições técnicas e clínicas, como privacidade, plataforma segura, boa ligação à internet e ferramentas adequadas para estimulação bilateral. As mesmas etapas essenciais do protocolo mantêm-se neste formato.
Quais são as contraindicações da terapia EMDR?
Mais do que contraindicações absolutas, existem situações que exigem avaliação e estabilização prévias antes de avançar para o processamento direto da memória.
Entre essas situações incluem-se a ausência de recursos positivos, o risco elevado sem plano de segurança (ideação suicida ativa), dissociação marcada sem recursos de ancoragem, episódios psicóticos ou maníacos não estabilizados, intoxicação ou abstinência aguda de substâncias, condições médicas instáveis e processos legais sensíveis em que o momento do processamento deva ser cuidadosamente ponderado.
O que esperar após uma sessão de EMDR?
Nas 24 a 72 horas seguintes a uma sessão podem surgir cansaço acrescido, sonhos vívidos ou emoções mais à flor da pele. Estas reações tendem a ser transitórias.
Com o avançar do processo, muitas pessoas relatam menos reatividade, maior clareza e mais liberdade para agir de acordo com os próprios valores. Quando necessário, podem ser combinadas estratégias simples para o dia a dia e exercícios breves entre sessões.
EMDR para crianças e adolescentes
A terapia EMDR também pode ser adequada para crianças e adolescentes, desde que haja adaptações à linguagem, aos recursos usados e, quando apropriado, à participação dos cuidadores. É igualmente importante que o profissional tenha formação específica para estas faixas etárias.
A EMDR substitui outras formas de psicoterapia?
Nem sempre. A EMDR pode ser usada isoladamente em algumas situações ou integrada com outras abordagens psicoterapêuticas. A escolha depende da formulação clínica e dos objetivos terapêuticos definidos para cada pessoa.
Que profissional deve realizar terapia EMDR?
A terapia EMDR só pode ser ser realizada por profissionais da saúde mental (psicólogos clínicos e médicos psiquiatras), devidamente enquadrados nas respectivas ordens profissionais e com formação específica nesta abordagem, devidamente reconhecidos pela Associação EMDR Portugal (podes consultar o diretório de terapeutas devidamente credenciados aqui: https://emdrportugal.pt/pesquisar-terapeuta/). Essa formação é um critério central para garantir que o processo decorre com segurança, estrutura e adequação clínica.
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