A PHDA (Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção) é uma condição do neurodesenvolvimento que persiste ao longo da vida, ainda que a sua apresentação e sintomatologia associada possa variar consoante a fase e as exigências inerentes a cada etapa do desenvolvimento. A PHDA pode afetar, de forma geral e resumida, a capacidade de atenção e concentração (desde sintomas de desatenção a momentos de hiperfoco), a organização, o controlo dos impulsos e a gestão das tarefas do dia a dia.
Embora seja frequentemente associada à infância, a PHDA também afeta os adultos. Em muitos casos, os sintomas tornam-se mais evidentes perante as exigências da vida profissional, familiar e pessoal, podendo interferir com as relações, o desempenho no trabalho e o bem-estar emocional.
Conhecer os sintomas, compreender o processo de diagnóstico e identificar as opções de intervenção/tratamento é fundamental para gerir esta condição e melhorar a qualidade de vida de quem a tem.
O que é?
A Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por dificuldades persistentes relacionadas com a atenção, a hiperatividade e/ou a impulsividade.
Nos adultos, a PHDA nem sempre se manifesta através da agitação física habitualmente associada às crianças; a agitação pode ser, sobretudo, mental, e traduzir-se numa sensação constante de inquietação interna, dificuldade em organizar tarefas, “pop-ups” de pensamentos aleatórios, esquecimentos frequentes ou problemas em gerir o tempo.
Muitas pessoas só identificam estas dificuldades na idade adulta, apesar de já existirem sinais durante a infância ou adolescência; habitualmente, a procura de ajuda surge quando as exigências se sobrepõem à soma das capacidades e dos mecanismos de compensação que mascararam alguns sintomas até então.
De acordo com os critérios clínicos formalmente utilizados, os sintomas devem estar presentes desde a infância, antes dos 12 anos. Embora exista investigação sobre a possibilidade de a PHDA surgir apenas na idade adulta, esta hipótese continua a ser debatida e não é consensual.
A PHDA pode apresentar-se, essencialmente, em três formas:
- Predominantemente desatenta: as principais dificuldades estão relacionadas com a concentração, a organização, o planeamento e a gestão do tempo.
- Predominantemente hiperativa/impulsiva: predominam a inquietação, a impaciência e a dificuldade em controlar impulsos.
- Combinada: existem sintomas significativos, tanto de desatenção, como de hiperatividade e impulsividade.
É, por isso, possível ter défice de atenção sem hiperatividade, quando predomina a apresentação desatenta, e ter hiperatividade/impulsividade sem défice de atenção, quando estamos perante uma apresentação predominantemente hiperativa/impulsiva. Importa ressalvar que, em ambos os casos, não ter critérios suficientes para défice de atenção ou hiperatividade/impulsividade, respetivamente, não significa que a pessoa não possa ter alguns sintomas; apenas significa que, considerando os critérios de avaliação, a pessoa terá o número mínimo de critérios necessários de uma dimensão e não ter o número mínimo de outra, ainda que possa ter alguns sintomas que devem ser considerados no quadro clínico e integrados no diagnóstico e intervenção.
A forma como a PHDA se manifesta também pode mudar ao longo da vida; as apresentações e os sintomas podem ir variando ao longo de um “espectro”. Por exemplo, a hiperatividade física pode tornar-se menos evidente na idade adulta, enquanto as dificuldades de atenção, organização e controlo dos impulsos persistem. Da mesma forma, uma apresentação predominantemente desatenta na infância pode dar lugar, de forma mais evidente, a uma mente inquieta e que nunca desliga na idade adulta.
Quais são os sintomas da PHDA nos adultos?
Os sintomas da PHDA podem variar de pessoa para pessoa, tanto na sua intensidade como na forma como se manifestam.
Na idade adulta, as dificuldades de concentração, a desorganização, a sensação de “cabeça a mil” e a procrastinação podem ser mais evidentes do que a hiperatividade física. Importa ainda ressalvar que a PHDA não é um problema de conhecimento, mas sim de execução daquilo que se sabe.
Sintomas de desatenção
Entre os sinais mais comuns de défice de atenção nos adultos encontram-se:
- Dificuldade de concentração: problemas em manter a atenção, sobretudo durante tarefas longas, repetitivas ou pouco estimulantes.
- Procrastinação: tendência para adiar tarefas, mesmo quando são importantes ou urgentes.
- Dificuldade em concluir tarefas: começar várias atividades e ter problemas em terminá-las.
- Esquecimentos frequentes: esquecer compromissos, prazos, informações importantes ou perder objetos.
- Desorganização: dificuldade em definir prioridades, planear atividades e gerir o tempo.
- Problemas na retenção de informação: necessidade de ler várias vezes o mesmo texto ou dificuldade em recordar informações de uma conversa.
Alguns adultos também apresentam oscilações significativas na produtividade, alternando períodos de grande concentração, por vezes designados por hiperfoco, com momentos de dificuldade em iniciar (procrastinação e/ou dificuldade de encontrar motivação para começar) ou concluir tarefas.
Sintomas de hiperatividade e impulsividade
Nos adultos, a hiperatividade pode manifestar-se de forma mais subtil ou menos visível, através de inquietação mental ou de uma sensação constante de urgência.
Os sinais mais frequentes incluem:
- Inquietação interna: dificuldade em relaxar ou sensação de estar constantemente com pressa.
- Impaciência: dificuldade em esperar, permanecer em filas ou participar em reuniões prolongadas.
- Impulsividade: tomar decisões precipitadas, responder antes de pensar ou agir sem ponderar as consequências.
- Interrupções frequentes: interromper conversas, terminar frases de outras pessoas ou falar excessivamente.
- Dificuldade em lidar com a frustração: maior reatividade emocional perante contratempos ou situações inesperadas.
- Necessidade de estímulo: dificuldade em abrandar ou permanecer em atividades pouco estimulantes.
Nem todas as pessoas com PHDA apresentam os mesmos sintomas. Algumas têm sobretudo dificuldades de atenção e organização, enquanto outras manifestam sinais mais evidentes de hiperatividade e impulsividade.
Quais são as causas da PHDA?
A PHDA é uma condição multifatorial, o que significa que não existe uma causa única que explique o seu desenvolvimento.
A componente genética tem um peso importante, com estimativas de hereditariedade entre os 70% e os 80%. Isto significa que os fatores genéticos desempenham um papel relevante na predisposição para a perturbação.
No entanto, a PHDA também pode estar associada à influência de fatores ambientais de risco (cerca de 20 a 30%), sobretudo ainda durante a gravidez e nos primeiros anos de vida; altura em que o cérebro se começa a desenvolver.
A combinação destes fatores contribui para explicar por que motivo a perturbação se manifesta de formas diferentes e com graus de intensidade variáveis.
Como é feito o diagnóstico de PHDA em adultos?
O diagnóstico de PHDA na idade adulta exige uma avaliação clínica estruturada, que permita compreender os antecedentes, os sintomas e o sofrimento associado, a sua evolução ao longo da vida, os contextos em que se manifestam, os mecanismos compensatórios que os podem ter vindo a mascarar e, no fundo, o impacto que têm no funcionamento diário da pessoa.
Não basta identificar dificuldades de concentração, esquecimentos, impulsividade, reatividade ou desorganização. É necessário avaliar a persistência dos sintomas, a sua presença em diferentes contextos e a possibilidade de existirem outras condições que expliquem estas dificuldades (diagnóstico diferencial) ou que possam existir em simultâneo com as mesmas (possíveis comorbilidades).
A avaliação psicológica pode decorrer ao longo de várias sessões e incluir:
- Entrevista clínica detalhada: exploração dos antecedentes, identificação das dificuldades atuais e análise do seu impacto no trabalho, nos estudos, nas relações, nas atividades quotidianas e na autoestima.
- Análise da história de desenvolvimento: investigação de possíveis sinais de PHDA na infância e adolescência, incluindo o percurso escolar e familiar.
- Avaliação dos sintomas em diferentes contextos: identificação da persistência das dificuldades e da forma como interferem com várias áreas da vida.
- Questionários e testes psicométricos: utilização de instrumentos de avaliação validados, quando clinicamente indicado.
- Recolha de informação complementar (heteroanamnese): sempre que possível, recolher informação de familiares, parceiros ou outras pessoas de referência, bem como análise de relatórios escolares ou outros registos relevantes.
A avaliação também deve considerar a presença de outras condições, como ansiedade, depressão, perturbação obsessivo-compulsiva, perturbações do sono, trauma, burnout, problemas relacionados com o consumo de substâncias e outras dependências/adições, entre outros.
Estas situações podem coexistir com a PHDA ou, por outro lado, provocar sintomas semelhantes, pelo que é fundamental distingui-las e integrá-las no diagnóstico, seja em termos de diagnóstico diferencial, seja em termos de diagnóstico de comorbilidades.
Quando a avaliação psicológica identifica indicadores compatíveis com PHDA, o diagnóstico deve ser confirmado através de uma avaliação médica especializada, em consulta de Psiquiatria.
O tratamento de primeira linha para a PHDA no adulto, considerando as guidelines internacionais, é a intervenção farmacológica (que, com base nos estudos científicos levados a cabo nos últimos anos, terá um efeito ainda melhor se for complementada com acompanhamento em psicoterapia). Esta avaliação é particularmente importante quando existem outras perturbações ou sintomas com impacto significativo na vida diária com necessidade de ponderar tratamento farmacológico.
Qual o impacto da PHDA na vida adulta?
A PHDA pode afetar diferentes dimensões da vida, especialmente quando os sintomas permanecem durante vários anos sem serem identificados ou acompanhados.
As consequências mais frequentes incluem:
- Trabalho e estudos: atrasos, dificuldades em cumprir prazos, problemas de organização e produtividade inconsistente, apesar do esforço realizado.
- Relações pessoais: conflitos relacionados com esquecimentos, impulsividade, dificuldades de comunicação ou reatividade emocional.
- Saúde mental: ansiedade associada ao esforço constante para compensar dificuldades, frustração e desgaste emocional.
- Autoestima: sentimentos de culpa, vergonha, autocrítica e sensação de incapacidade perante tarefas aparentemente simples (“se todos conseguem, porque é que eu não consigo também?”).
- Vida quotidiana: dificuldades em manter rotinas, gerir compromissos e conciliar responsabilidades pessoais, familiares e profissionais.
Em algumas pessoas, o esforço contínuo para compensar estas dificuldades pode provocar uma sensação persistente de exaustão, sem que muitas vezes se dêem conta; por vezes, só se dão conta que chegaram ao limite quando já o ultrapassaram.
A PHDA nas mulheres pode ser mais difícil de identificar?
Embora existam muitos sintomas comuns a homens e mulheres, a PHDA pode manifestar-se de forma diferente ou menos evidente em algumas mulheres.
É frequente predominarem dificuldades ao nível da atenção, sobrecarga mental, ansiedade e uma tendência para camuflar os sintomas através de estratégias de compensação, como o perfeccionismo ou a autoexigência. Isto parece ser potencialmente exacerbado devido aos papéis de género e à representação da mulher naquilo que é convencionalmente esperado.
Não obstante, os aspetos hormonais ligados às várias etapas da vida da mulher podem ter um papel preponderante na manifestação de alguns sintomas: estudos mais recentes indicam que as alterações hormonais têm um particular impacto nas mulheres, e que esses fatores são relevantes em termos diagnósticos e de intervenção. Esta é uma área que atualmente está a desenvolver-se em termos de investigação e que, por isso, merece particular atenção.
Em suma, estes fatores e, sobretudo, o facto de haver uma apresentação mais interiorizada, podem contribuir para o reconhecimento tardio da perturbação e para um maior desgaste emocional.
Como é feito o tratamento da PHDA no adulto?
O tratamento da PHDA deve ser individualizado, considerando os sintomas, o seu impacto na vida quotidiana e a eventual existência de outras condições associadas.
O objetivo não é apenas reduzir as dificuldades associadas à atenção, hiperatividade ou impulsividade, mas também melhorar a organização, o funcionamento diário, as relações pessoais, a relação consigo mesmo, o bem-estar emocional e a qualidade de vida.
O plano terapêutico deve incluir tratamento farmacológico (com avaliação e indicação médica, por ser considerado, conforme referido, o tratamento de primeira linha no adulto). A intervenção farmacológica, preferencialmente, deve ser combinada com acompanhamento psicológico (que inclua uma integração da história de vida, dificuldades e caracterização do funcionamento, impacto percebido, desenvolvimento de estratégias práticas adequadas a cada pessoa, entre outras questões que devem ser abordadas no acompanhamento).
Psicoterapia e estratégias de organização
A intervenção psicológica pode ajudar os adultos com PHDA a compreender e integrar a sua história e o seu funcionamento e, por conseguinte, a desenvolver ferramentas para lidar com as dificuldades do dia a dia. Importa ressalvar que cada dificuldade é singular, e que a expressão de cada sintoma merece uma análise e intervenção direcionada e objetiva, considerando as especificidades de cada um; não há estratégias que sirvam a todos e, partir com base nesse pressuposto, pode gerar frustração e reforçar sentimentos de incapacidade.
O acompanhamento pode incluir:
- Psicoeducação: compreender a PHDA, reconhecer os padrões individuais de atenção, hiperatividade e/ou impulsividade, e identificar os fatores que facilitam ou dificultam o funcionamento diário é essencial; o autoconhecimento é uma parte fundamental do processo de tratamento.
- Gestão do tempo e planeamento: desenvolver estratégias para organizar tarefas, estabelecer prioridades e cumprir compromissos, percebendo as dificuldades inerentes.
- Criação de rotinas: implementar hábitos realistas e sustentáveis, ajustados às necessidades de cada pessoa, e ajustá-los sempre que necessário, promovendo a flexibilidade cognitiva e o reajuste de expectativas.
- Utilização de ferramentas de apoio: recorrer a agendas, listas, lembretes, blocos de tempo para facilitar a organização, entre outros. Neste âmbito, podemos usar a tecnologia a nosso favor: explorar aplicações e sistemas automatizados que ajudem nas dificuldades. Fomentar a curiosidade e a criatividade são a chave do sucesso na intervenção! O que funciona hoje, pode deixar de ser estimulante amanhã e, nesse sentido, é importante ter uma postura de abertura para procurar outras soluções e “reajustar a rota” quando necessário.
- Gestão emocional: trabalhar o reconhecimento e a gestão de sentimentos de culpa, frustração, vergonha, ansiedade e autocrítica.
- Dificuldades relacionais: perceber “o que está a falhar” e, considerando o que for percebido, desenvolver estratégias que permitam lidar melhor com conflitos, melhorar a comunicação nas relações pessoais e profissionais, entre outras dificuldades relacionais.
A psicoterapia, incluindo o coaching e as abordagens cognitivo-comportamentais adaptadas à PHDA, pode ser particularmente útil quando existem dificuldades de organização, procrastinação ou impacto emocional significativo.
Medicação e acompanhamento psiquiátrico
Os estudos científicos mais recentes e as guidelines internacionais definem a medicação como tratamento de primeira linha da PHDA nos adultos, ainda que recomendem a complementaridade com acompanhamento psicológico para potenciar os ganhos terapêuticos.
O tratamento farmacológico atua sobre mecanismos neurobiológicos associados às funções executivas, podendo contribuir para melhorar a concentração, reduzir a impulsividade e facilitar a aplicação das estratégias desenvolvidas no acompanhamento psicológico.
A decisão deve ser sempre individualizada e acompanhada por um médico, tendo em conta as características e necessidades de cada pessoa.
A PHDA tem cura?
A PHDA é uma perturbação do neurodesenvolvimento. Isto significa que, no sentido clássico e literal da palavra, não tem cura; trata-se de uma condição que “nasce connosco” e que nos acompanha para o resto da vida, com maior ou menor expressão, e maior ou menor dificuldade de lidar com os sintomas. A boa notícia é que pode e deve ser tratada e gerida, considerando as necessidades específicas de cada um.
Mais do que diagnosticar, é compreender. Mais do que rotular, é dar sentido. Um diagnóstico não define quem a pessoa é; mas pode dar nome ao que, durante anos, não teve explicação.
Com acompanhamento adequado, ou seja, desejavelmente com a combinação entre o tratamento farmacológico e a psicoterapia, muitas pessoas conseguem alcançar melhorias significativas e sustentadas no funcionamento diário e na qualidade de vida. No fundo, não se trata de eliminar diferenças, mas sim de transformar dificuldades em estratégias e o potencial em possibilidades. O diagnóstico de PHDA no adulto pode explicar parte da história. A intervenção ajuda a escrever o que vem a seguir.